O Feminino e o Sagrado um jeito de olhar o mundo

Ceticismo e fundamentalismo religioso, duas faces da mesma moeda

Li no jornal que uma editora vai publicar apenas autores céticos (entendido no contexto como sinonimo de ateu), que atacam não só religiões e misticismos em geral, como também outras coisas “que não fazem sentido” como acupuntura, homeopatia, parapsicologia.
Na pagina oposta havia uma noticia de outro lançamento editorial que vai se dedicar apenas a livros filosóficos e religiosos de linha tradicional e conservadora, alguns tendendo ao fundamentalismo.
O fato dos dois artigos estarem respectivamente na frente e no verso da mesma folha do jornal me fez pensar que ambas as posições, se radicalizadas, são dois lados da mesmíssima moeda.
Aqui vou tentar mostrar isso.

Um verdadeiro ateu confia apenas no método cientifico (veja definição lá embaixo*), basicamente materialista, quantitativo e estatistico, para analisar qualquer assunto. Tudo que não se encaixar nesse método deve estar na categoria das coisas “que não fazem sentido“.
Sendo assim, para ele não deve fazer sentido dar mais valor à Mona Lisa que a outro quadro qualquer que tenha o mesmo tamanho, idade e composição dos materiais, já que este e o da Mona Lisa terão os mesmos valores quantitativos.
O qualitativo não entra aqui, nem o pessoal. É totalmente desconsiderado o que foge da estatística e de coisas da experiência que não podem ser explicadas pelo racional, mas que nem por isso são irreais.
Ou seja, esse “ceticismo” tem uma fé cega numa única visão de mundo,  determinada pela ciência.

Já a religião pode se tornar sim um refugio infantil contra a incerteza da vida e o medo da morte, um fenômeno de massa tranqüilizador como queria Freud e, igual ao cético acima, uma confortadora fé cega numa única visão de mundo, determinada pela religião.
E tanto melhor se for regulada por normas (tão rígidas quanto as do método cientifico) e certezas pré estabelecidas, como as dos fundamentalismos religiosos em geral.


Da mesma forma que os céticos, o fundamentalista religioso também dá toda importância às coisas concretas, materiais, quantificaveis.
Por exemplo, os eventos mitológicos e simbólicos são históricos (Deus criou o mundo em 7 dias mesmo); a riqueza é sinal da graça divina (Deus recompensa materialmente os fieis), a Terra Prometida está em determinado local geográfico, cada palavra do livro sagrado é literal, e por aí vai.

Bom, quanto a mim, fico com a ideia de Jung:
O problema da religião não é tão simples …: não se trata absolutamente de convicção intelectual nem de filosofia ou de fé, mas antes de experiência interior. Reconheço que é uma concepção que parece ser ignorada completamente pelos teólogos… Paulo, por exemplo, não foi convertido ao cristianismo por algum esforço intelectual ou filosófico, mas por força de uma experiência direta e interior.” (Cartas, vol II, pg 353)
Ou seja, me parece que, no campo da mística, ou você tem certa experiência interna inequívoca (não precisa ser tão forte quanto a de S Paulo, mas ao menos uma inquietação que não cessa), ou ela não faz sentido mesmo e aí você pode aderir a essa mesquinha crença que chamam de ceticismo.

Há ainda outra possibilidade: de que a pessoa tenha a experiência, seja de que forma for, mas a negue, lhe dê outro nome, a transforme em outra coisa… mas isso fica para outro post.

* Lembrando, em resumo o método científico consiste na observação de um fenômeno, na sua experimentação em determinadas condições, na teorização, em seu correspondente desenvolvimento matemático e/ou confirmação estatística.
 

Texto de Beatriz Del Picchia,fotos internet

6 comentários

  1. Muito bem colocado! Percebo que a intolerância também é a mesma e se manifesta da mesma forma. Tanto o ceticismo quanto o fundamentalismo religioso querem converter e "salvar" os discordantes, com discursos igualmente agressivos…

    1. isadora disse:

      na verdade os céticos não querem salvar ninguém. Eles não acreditam em salvação lembra?
      Só refutam tudo isso..Oras também não é pbrigado a acreditar em tudo não é mesmo?

      1. biapicchia disse:

        Resposta no item anterior

    2. biapicchia disse:

      Clarissa, colo aqui as respostas que dei para a Isadora, bjs

      Isadora, claro que ser ateu não significa ser intolerante! Eu me refiro no post especificamente a um tipo de entendimento de ateísmo que, como as palavras deles estão dizendo claramente: “uma editora vai publicar apenas autores céticos (entendido no contexto como sinônimo de ateu), que atacam não só religiões e misticismos em geral, como também outras coisas “que não fazem sentido” como acupuntura, homeopatia, parapsicologia”. Você não acha que esse ataque é bastante intolerante?
      Interessante que em seu email você mesma trata acupuntura, homeopatia, parapsicologia como “placebos para os quais não vamos gastar milhões de reais”. Já se perguntou de onde vem sua crença de que essas coisas são placebos? Os editores que citei no post chamam de “coisas que não fazem sentido” o que se chama comumente de medicinas integrativas e de pesquisas de ponta em psicologia.

      Quanto a ateus não quererem salvar ninguém… será? Por exemplo, um dos ateus mais famosos do mundo faz grande proselitismo de sua crença: “Richard Dawkins, o proeminente crítico da religião declarou que a sua oposição ao tema é dupla: a religião é uma fonte de conflito e uma justificativa para a crença sem evidência. Ele considera a fé/crença que não é baseada em evidências como um dos grandes males do mundo. Ele ganhou destaque nos debates públicos relativos a ciência e a religião, depois que seu livro The God Delusion, publicado em 2006, se tornou um best-seller internacional” fonte: Wickpedia

      Por fim, minha intenção nesse texto era mostrar que as crenças que nos vedam os olhos podem estar tanto no fundamentalismo religioso como no fundamentalismo científico: dois lados da mesma moeda, que se chama fanatismo. Como percebeu, não gosto mesmo de nenhum dos dois. E respeito muito o ateísmo saudável, que não é uma crença e sim uma ausência de crença.

      Agradeço seu interesse nesse meu antigo post, e a oportunidade de rever esse assunto nesses tempos obscuros em que vivemos. Abraços, Bia

  2. isadora disse:

    Comentários:
    1) ateu não significa ser intolerante
    2) Ser cientista não significa compreender a religiosidade e crenças
    3) Ser cientista e ateu não significa não ser uma pessoa sensível a arte.
    4) Cientistas e céticas chamam se curar por energia ou coisas do tipo como Placebo, o que é bom! Mas não vamos gastar milhões de reais em placebos não é mesmo?
    E você ao expor essas coisas dessa forma, mostra como você é radical também em sua crença e não tenta olhar o lado de um ateu, ou seja não tem empatia e nada compreensível. Ao meu ver, vocês que estão na mesma moeda. E não alguém que se diz ser cética.

    E outra ceticismo é a falta de crença. Achei seu texto com muita falta de argumentos, mas te entendo você desabafa uma raiva. E raiva as vezes pode se expressar de tal forma que significa a negação de algo …
    Pode ser na verdade que se você não acreditar mais nessa espiritualidade, você se sentirá mal e por isso você tem raiva dos céticos, pois eles podem mostrar uma outra alternativa.

    Abraços e espero que você abrace um pouco o ceticismo também, porque como você mesma se expressou não ser pragmática e ver tudo com um todo e não atacar os outros não é mesmo? Então por que atacas tanto o ceticismo?

    1. biapicchia disse:

      Isadora, claro que ser ateu não significa ser intolerante! Eu me refiro no post especificamente a um tipo de entendimento de ateísmo que, como as palavras deles estão dizendo claramente: “uma editora vai publicar apenas autores céticos (entendido no contexto como sinônimo de ateu), que atacam não só religiões e misticismos em geral, como também outras coisas “que não fazem sentido” como acupuntura, homeopatia, parapsicologia”. Você não acha que esse ataque é bastante intolerante?

      Interessante que em seu email você mesma trata acupuntura, homeopatia, parapsicologia como “placebos para os quais não vamos gastar milhões de reais”. Já se perguntou de onde vem sua crença de que essas coisas são placebos? Os editores que citei no post chamam de “coisas que não fazem sentido” o que se chama comumente de medicinas integrativas e de pesquisas de ponta em psicologia.

      Quanto a ateus não quererem salvar ninguém… será? Por exemplo, um dos ateus mais famosos do mundo faz grande proselitismo de sua crença: “Richard Dawkins, o proeminente crítico da religião declarou que a sua oposição ao tema é dupla: a religião é uma fonte de conflito e uma justificativa para a crença sem evidência. Ele considera a fé/crença que não é baseada em evidências como um dos grandes males do mundo. Ele ganhou destaque nos debates públicos relativos a ciência e a religião, depois que seu livro The God Delusion, publicado em 2006, se tornou um best-seller internacional” fonte: Wickpedia

      Por fim, minha intenção nesse texto era mostrar que as crenças que nos vedam os olhos podem estar tanto no fundamentalismo religioso como no fundamentalismo científico: dois lados da mesma moeda, que se chama fanatismo. Como percebeu, não gosto mesmo de nenhum dos dois. E respeito muito o ateísmo saudável, que não é uma crença e sim uma ausência de crença.

      Agradeço seu interesse nesse meu antigo post, e a oportunidade de rever esse assunto nesses tempos obscuros em que vivemos. Abraços, Bia

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