O Feminino e o Sagrado um jeito de olhar o mundo

Você também quer ser árvore?

No meio de uma noite escuríssima, entrei numa sala de bate papo da internet, e disse que na próxima vida eu gostaria de nascer árvore. Disse isso para mim mesma, para ninguém, ou, justamente, para aquela noite. Mas então, como fantasmas que só se manifestam quando a gente acha que está sozinha, a tela se encheu de respostas:

– Eu também!
– Eu também!

Como assim? Aquela noite não estava escurissima só para mim? Por que outros seres (humanos?) também estariam querendo ser árvores na próxima vida?

Teclei antes que minha cabeça começasse a inventar respostas:
– Uma mangueira gorda…? (sou do interior, e, portanto, o primeiro pensamento que me vem á cabeça quando digo “árvore” é de alguma coisa que tem utilidades, como frutos doces, grandes sombras, etc).
Desta vez as respostas não me apoiaram. As preferências foram para árvores altas, esguias, românticas, espectrais. Claro, aquela era hora de vampiros, não de caipiras. Sugeri:
– Um álamo? – Um carvalho estrangeiro? – Um… chorão? – Ok, um cipreste, pronto.
– Bem solitário, pulou uma linha.
– Antigo.
– Imortal.
– Não existe árvore imortal, sentenciou uma linha em itálico.
Silencio.
– … nem próxima vida.
Dava para ouvir as vaias. Mas logo veio outra linha:
– A minha vai ficar no alto de um Morro de Ventos Uivantes.
– Numa floresta fria.
– Numa floresta negra.

Enredados nesse emaranhado, pulamos do humano direto para o vegetal, sem passar pela cadeia evolucionaria, pela cadeia alimentar, por cadeia de qualquer tipo, presos que já estávamos nos quadrados claros (demais) dos monitores. Naquela hora da noite escuríssima não havia nada em nós que não fosse desejo de força e expansão, de sermos, talvez, galhos que se nascem e se alongam do mais parrudo para o mais menino, do um para o dois e para dez dezenas de ramificações de si mesmo, findando-se em finas pontinhas, em frutinhas, seivas e sons surdos de ventos verdes, aguadas.

Na madrugada que finalmente conseguiu raiar, fui procurar fotos de árvores que bati por aí, porque esse meu desejo, que teve tantos seguidores naquela noite, tinha suas raízes em meu velho habito de observadora de árvores. Entre outras coisas, observo sua estabilidade, que mais me espanta quanto mais instável me sinto.
Tirei umas fotos em Itaparica, onde queria ver, e praticamente vi, por todo lado, o João Ubaldo Ribeiro (ele diz que mora no Rio de Janeiro, mas acho que é mentira) e dei com as árvores mais apavorantes do mundo. Aliás, uma fonte quase confiável, de lá mesmo, me afirmou que o Tolkien, numa das visitas que fez á Bahia para coletar material para o Senhor dos Anéis, se inspirou nelas para criar os Ents. Lembra? Aqueles seres arbóreos que se moviam para defender o mundo do Mal, e ás vezes caiam, com estrondo, em cima dos bandidos.

Não acredita? Pergunte ao João Ubaldo, que deve saber dessa história. Na pracinha central, há uma reunião desses velhos Ents, bem ao lado das casinhas coloridinhas da costa baiana, no embalo morno das pretas mães, troncos.

Nessas árvores, os galhos veiosos se dirigem para cima, para fora, para um monte de saídas, emaranhado por isso diferente do nosso, na internet sem rumo nem mar, naquela noite de linhas saltando a esmo, enroscando-se expostas ao escuríssimo.

Conclusão: No dia seguinte, os vizinhos resolveram podar os galhos da coitada da sibipiruna do jardim:

– … e provavelmente ela terá que ser totalmente arrancada, temos que chamar a prefeitura. Está com cupim.

Está mesmo. Árvores como ela estão frequentemente caindo, com estrondo, em cima dos carros e das cabeças do Jardim Paulista.

– São perigosas, insistiram.

– São mesmo, concordei, covardemente.- Apavorantes.

Mas acho que um monte de gente vai nascer árvore na próxima vida.

 Texto e fotos de Beatriz Del Picchia, desenhos Cristina Balieiro

1 comentário

  1. Anônimo disse:

    Passei parte de minha infância no internato em Itaparica nos anos 70. Hoje moro lonje mas não esqueço esse lugar lindo com suas árvores centenárias.Zenaide

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