O Feminino e o Sagrado um jeito de olhar o mundo

Antigos símbolos tratam conflitos internos

Sabe quando ficamos conflitantes conosco mesmas, como se estivéssemos divididas em duas metades?

Existe um símbolo, vindo dos Alquimistas, que pode ajudar a pensar sobre isso: os dois pássaros.
É para onde esse Velho aponta, no livro aberto.

Simbolismo do pássaro

Nas antigas tradições, o pássaro é considerado um intermediário entre o céu e a terra, e como um ser de duas naturezas, uma celeste e outra terrestre.
Essa gravura nos mostra esta dupla natureza como dois pássaros: um com asas, que é o de natureza celeste, representação do espírito que quer voar para o alto, e outro sem asas, terrestre, ligado as emoções e a nossa vida corpórea.
Os dois se bicam, porque o terrestre puxa o celeste para baixo, e vice versa. 
Então, além de outras interpretações, essa figura pode ser vista como a representação de um conflito: no mesmo lugar há duas tendências contraditórias. 
Como acontece dentro da gente, os dois pássaros estão ligados num só contexto, de forma ovalada, quase circular.

Simbolismo do círculo

Na pergunta já está a resposta e na formulação do problema a sua solução. Assim, este círculo é uma indicação da resposta ao conflito. 

Para os junguianos, o circulo é uma representação do Si-mesmo; em outra leitura, é a nossa Totalidade. Então, se estamos divididos num conflito interno, não é a simples opção por um dos lados – por um dos pássaros – que vai resolver de verdade o caso, porque algo de nós vai ficar de fora.

Dar um passo para trás 

Nesses casos, a psicóloga Marie Louise von Franz nos aconselha a deixarmos um problema “cozinhar no próprio caldo”
 Ou seja, a não procurarmos afoitamente uma saída externa e imediata, mas de aguentarmos a tensão trazendo para dentro e sustentando o problema, simplesmente observando os dois pássaros, sem nos identificarmos com nenhum dos dois e sim com o círculo.

O Zen diz a mesma coisa quando fala que devemos tentar “dar um passo para trás”, procurando a consciência relaxada no meio da tensão, pois esse relaxamento não busca a reconciliação de opostos, mas nos traz a integração dos opostos…

Integrar os opostos

Assim, a resposta poderá vir não da derrota de um dos lados, mas da integração de ambos. Por exemplo, o fim da luta dos pássaros terrestre e celeste poderá ser a “espiritualização da matéria e a materialização do espírito”, como disse ainda a von Franz.

Um modo de integração de opostos é procurar enxergar o simbólico numa situação concreta, por exemplo perguntando-se coisas como:

O que isto está simbolizando? Para além do fato concreto, o que está dizendo sobre mim, quais novas qualidades e condições está exigindo?

E inversamente, concretizar o simbólico – por exemplo, quando desenhamos, escrevemos e trabalhamos com os sonhos.

Também é isso o que fazem os rituais: materializam em ações e/ou palavras o simbólico, os sentimentos e intenções.

Num assunto mais cotidiano, outro modo de trabalhar isso é procurar a emoção oposta a que está nos dominando.

Por exemplo, quando estamos sentindo muita raiva de alguém ou de alguma coisa, tentar lembrar a sensação de uma calma frieza. 

Se conseguirmos assim alternar as emoções evocando suas polaridades opostas, nós não nos identificamos com nenhuma das duas (com nenhum dos dois pássaros) e sim com nosso eixo (o circulo). 
É dali que as decisões devem partir, inclusive a respeito da situação que despertou a tal raiva.

E agora você deve ter lembrado de outro famoso círculo que une polaridades: o símbolo do TAO e seu duplo peixe, cada um contendo a semente de seu oposto.

TAO, Zen, Alquimia, Psicologia

Num conflito interno, nossa ansiedade já quer partir logo para uma “solução” qualquer, que nos leva a ser menos do que poderíamos ser.

Conseguir participar das dores e alegrias do mundo e ao mesmo tempo sermos também uma fria testemunha que apenas observa o que acontece parece a chave para a vivência plena de nossas possibilidades, de nossa grandeza e de nossa integridade. 

Ou seja para a totalidade.

Isso é o que vem dizendo a tradicional sabedoria humana, desde o taoísmo, há mil anos antes de Cristo, passando pelo Zen no séc VIII, pelos alquimistas do séc XV, chegando até a uma psicóloga suíça do séc XX… 

Texto de Beatriz Del Picchia, ilustração internet

2 comentários

  1. Excelente postagem! Gostaria de colocar um link para ela no meu blog, se vocês permitirem.
    Espero sua autorização. Obrigada!

  2. Desculpe a demora da resposta, mas só vimos agora seu comentário. Claro que a gente permite o link.
    Abraco
    Cris e Bia

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *