O Feminino e o Sagrado um jeito de olhar o mundo

Prática de percepção: FAREJAR


A Dama, o Unicórnio, o Leão e todos os animaizinhos farejam as flores e ervas aromáticas do jardim.
 
O sentido mais forte na maioria dos animais de sangue quente é o olfato, através do qual percebem não só o mundo visível como também farejam coisas que ainda estão fora da vista. Por isso os verbos cheirar e farejar são usados no sentido de intuir: perceber sem passar pelas vias racionais.
A ideia destas práticas simples é prestar atenção às nossas sensações corporais e percepções, e conectá-las a nosso mundo interno. Se quiser mais informações sobre isso, clique AQUI.
Não é preciso ter feito as práticas anteriores para fazer a de hoje, que consiste em: 
 

1. PRESTAR ATENÇÃO AO(S) CHEIRO(S) DO AMBIENTE ONDE SE ESTÁ. Também ficar atento a INTUIÇÕES que eventualmente surjam.
2. DAR QUALIDADES ÀS ESSE(S) CHEIRO(S), PERCEBER OS SENTIMENTOS QUE TRAZ(EM) E FAZER ASSOCIAÇÕES EMOCIONAIS. Eu sigo mais ou menos o roteiro abaixo, mas não é preciso responder todas essas questões.

 Mais abaixo, ilustrando, uma prática minha.

3. DURAÇÂO: UM DIA.

 E se percebermos que estamos farejando melhor os cheiros do mundo, OBA! Se nossa intuição também estiver se fortalecendo, OBA OBA! A gente deve estar sentindo o perfume das flores da tapeçaria da Dama!
Roteiro: Exatamente que cheiro estou sentindo agora? É agradável, desagradável, forte, fraco? Acho ou sei do que vem (carros, gente fumando, pão assando, flores, etc)? Gosto dele? Esse cheiro é presente no meu cotidiano ou só sinto de vez em quando? Dá vontade de me aproximar ou de me afastar? Lembram lugares, pessoas, épocas da minha vida? Dá desejo(s) de fazer alguma coisa como tapar o nariz, fugir, inalar mais forte, descobrir de onde vem, sair do lugar onde estou, falar alguma coisa..? Se não sinto nenhum cheiro e/ou se pudesse escolher algum odor para aspergir no lugar onde estou, qual seria: vento de mar, perfume francês, cozinha da mama, essência de shopping, loja de sabonete, bosque de eucaliptos, cheiro de carro novo, cheirinho de bebê ou do ser amado…? Agora, se fechar os olhos e focar dentro de mim, sinto alguma impressão ou pressentimento que não sei definir direito sobre esse lugar? Consigo pensar numa imagem ou dar uma palavra que se pareça com essa impressão?    
Aguando
Sentada no escritório, senti o cheiro horrível de gasolina do carro que o vizinho sempre teima em deixar ligado um tempão antes de sair. Irritada, saí para meu jardinzinho e peguei a mangueira, talvez mais para limpar minhas narinas do que para molhar as plantas.
Aí sim. Não demorou nada para subir da terra o cheiro de terra molhada, que me trouxe um prazer úmido, quente, quase doce, quase sensual. Maravilhoso perfume, que parece um modo da terra nos agradecer por esses banhos.
Naquela tarde, tive a impressão de estar fazendo algo muito antigo, de ser um elo de corrente… Foi aí que me veio a imagem da minha avó, que todo final de tarde ia molhar a horta.
Sob o sol baixo a velhinha, linda feito uma das fadinhas da Bela Adormecida, ficava com o braço estendido, a água jorrando da ponta de sua mangueira como bênçãos que ela generosamente espalhava para as alfaces e hortelãs.
Não à toa, nos templos budistas coloca-se imagens de Tara, a Mãe de todos os Budas, no centro de fontes. Ela traz em suas mãos uma jarrinha contendo o remédio adequado a cada um, e nas águas das fontes muitas vezes boiam flores belas e cheirosas, para curar ao mesmo tempo alma e corpo, espírito e matéria.
Aguar, verbo feminino.
Texto de Beatriz Del Picchia, imagens das tapeçarias da Dama e o Unicórnio expostos no Museu de Cluny, Paris.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *