O Feminino e o Sagrado um jeito de olhar o mundo

Prática de percepção: OUVIR

A Dama e o Unicórnio ouvem os sons da harpa tocada pela ajudante.
A ideia destas práticas simples é prestar atenção às nossas sensações corporais e percepções, e conectá-las a nosso mundo interno. Se quiser mais informações sobre isso, clique AQUI. Não é preciso ter feito as práticas anteriores para fazer a de hoje, que consiste em: 
 1.AFASTAR OUTROS ESTÍMULOS E CONCENTRAR-SE SÓ NISSO. Ficar parada, não olhar para o computador, celular, televisão, desligar o som, não falar.
2.OUVIR ATENTAMENTE OS SONS NÃO VIRTUAIS DO AMBIENTE ONDE SE ESTÁ: ruídos de fundo da casa e do trabalho, som que vem da janela, barulhos de ambientes públicos como shoppings, rua, ônibus, metro, sons da natureza em parques, etc. Interromper se alguém vier falar conosco.
3.DAR QUALIDADES AO QUE SE OUVE, PERCEBER OS SENTIMENTOS QUE TRAZEM EFAZER ASSOCIAÇÕES EMOCIONAIS. Eu sigo mais ou menos o roteiro abaixo, mas não é preciso responder todas essas questões. Outra opção é se concentrar em apenas uma ou duas das perguntas. Para ilustrar, meu exercício está no final desse post.
4. DURAÇÂO: ALGUNS MINUTOS.
 
Roteiro: Exatamente o que estou ouvindo agora? Quantas fontes de som percebo nesse momento e de que direção eles vem? São altos demais, ou quase não dá para ouvi-los? São naturais ou são produzidos por máquinas? São coletivos ou individuais? São repetitivos ou não? Eu os escuto com frequência ou raramente? São agradáveis, desagradáveis, indiferentes? Estridentes, graves, agudos? Gosto deles? Dão vontade de me aproximar ou de me afastar deles (se são vários)? Lembram lugares, pessoas, épocas da vida? Trazem-me imagens, ideias abstratas? Inspiram desejos de fazer alguma coisa, como viajar, amar, descansar, brincar, desligar, gritar, chorar, conversar, cantar, etc? Gostaria de estar num lugar silencioso ou prefiro escutar alguma coisa o tempo todo? O que gostaria de ouvir com mais frequência? O que “ouço” no meio do silencio? Qual é a trilha sonora da minha vida?
E se com essa pratica a gente perceber que está ouvindo melhor o que o mundo nos traz, OBA! Se notarmos que estamos mais disponíveis para escutar e aprender, OBA! E se os sons da vida chegarem ao nosso ouvido como lições boas ou chatas mas sempre uteis, OBA OBA! Estamos ouvindo a harpa da Dama!
  
Sejamos pássaros
Luzes apagadas, ouço os barulhos da mata atrás do meu chalé.
Me vem uma súbita compreensão de como são obsessivos os sons das cigarras e dos insetos barulhentos cujos nomes não sei. Eles repetem a mesma coisa como humanos que falam demais, como os que estão presos às suas fixações.
Há certa tristeza nessa obscuridade que vem não apenas da escuridão noturna, mas também da falta da luz da consciência. Coisa da qual ao menos por momentos nenhum de nos está livre, e que nos faz repetir a mesma coisa, mesmos sons, gestos, palavras, reações, ações danosas.
Mas de manhã acordo ouvindo criancinhas brincando na piscina. Como riem!
Dão risadinhas tipo hihihihi ou cricriiii bem levinhas, borbulhantes como o som da água que esparramam chapt chapt.
Um pássaro voa na minha frente, arrulhando alto. Distraio-me do exercício de ouvir e fico olhando seu voo, quase deixo meu pensamento voar junto, mas hoje é só ouvir. 
Volto para o som da bomba da piscina, grave como são as maquinas e nossas vidas quando automatizadas pelos trabalhos que não tem alma.
Assim, nesses dias de férias, meus ouvidos se abrem para os sons do mundo que normalmente bloqueio quando sou quase máquina, só trabalho e só gravidade e peso.
Não, para as férias quero sons agudos, trinados, ou se forem graves que venham do canto de Billy Holiday, mulher que nunca se conformou em ser máquina.
Sejamos como os pássaros, disse Jesus num sermão.
Emitir leves trinados, voar solto, fazer barulhinhos de crianças brincando na água…
E escutar os sons do mundo percebendo-os todos como sons do Caminho que não cansa de nos chamar.
Texto de Beatriz Del Picchia, imagens das tapeçarias da Dama e o Unicórnio expostos no Museu de Cluny, Paris.

2 comentários

  1. Gostei da vivência e achei lindo seu depoimento.
    Abraço

  2. Cristiane, é muito bom saber disso! beijo grande!

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