O Feminino e o Sagrado um jeito de olhar o mundo

O modo do fluxo (do rio…)

Nós começamos a estudar, pesquisar e a fazer as entrevistas para o livro sem clareza quanto a metas, prazos, expectativas, motivos. Simplesmente nos apaixonamos pelo assunto, em seguida pela história de cada entrevistada, e finalmente pelo processo em si. A cada passo tivemos uma surpresa, tanto com os eventos externos, quanto com o que acontecia dentro de nós. 
Mas nem todas as surpresas trouxeram satisfação. Por exemplo, depois de dois anos, de repente deu um branco. Empacamos. Não conseguíamos continuar e não entendíamos o que estava acontecendo. 

Não sei se é meu olhar de arquiteta, mas para mim esse trabalho parece ser um lugar: uma entidade-lugar, que tem zonas sombreadas, luminosas, desérticas. Acho que nós criamos um espaço, quase independente de nós duas, que precisa de nossa energia e que nos fornece energia. E, naquela hora, estávamos atravessando um deserto… 
BEATRIZ 

Embora com certa angústia, sentimos que não havia outra coisa a fazer a não ser aceitar o fato e caminhar por esse deserto. Assim, nem tentamos forçar a continuidade do trabalho, apesar dessa seca caminhada ter durado vários meses. Certo dia, consultamos o I Ching perguntando o que fazer. Saiu um hexagrama que se refere à criação e à arte. Uma dica, primeiro incompreensível… Até que a Beatriz olhou uma das historias das entrevistadas e a viu como ficção, na forma de um conto de fadas. Escreveu esse conto, mandou-o à Cristina, que o desenhou – e a seguir lembrou-se de um sonho que era uma metáfora perfeita do livro que faziam. E… pronto! O trabalho ganhou vida de novo, agora mais forte e depurado. De uma forma quase mágica, em pouco tempo estava concluído e o livro editado.
Percebemos descrições semelhantes em várias narrativas das entrevistadas. 

Eu nunca pensei em escrever, foi vindo. Como sempre, as coisas chegam na minha vida de forma intuitiva… Quando você puxa a energia para um espaço, a energia se organiza. Essa é a minha experiência. Se você coloca um tempo, a coisa acontece dentro desse tempo. 
MONIKA 

Parece que, ao nos colocarmos “à disposição”, passamos a perceber que um processo invisível ocorre por trás do processo visível. É como um fluxo sutil, de vez em quando até óbvio, às vezes prazeroso e às vezes exasperante, que provoca certa insegurança junto com grande criatividade. 

Isso é a coisa do palco… mas eu gosto! É essa possibilidade de sair disso aqui, do mundinho, do físico. A possibilidade da transcendência, de você sair desse seu corpo e se colocar a serviço de outras coisas, de outros estágios de consciência, de outra vivência física, de outro aspecto. Colocar o seu rosto, colocar-se a serviço de outro temperamento, transformar a realidade. 
ROSANE 

Não é possível explicar esse fluxo, parte do grande mistério que no máximo tateamos, pequenos que somos. Mas podemos dizer o que ele não é: não é impulso e desejo; não depende de esforço (mesmo que exija dedicação); não é uma compreensão racional, e nem é uma fé cega. Pelo contrário, para percebê-lo nós não podemos nos deixar cegar pelos preconceitos, mesmo os científicos, tendo uma tola fé nas verdades “absolutas” da época. É preciso abrir bem os olhos para ver as dicas dos oráculos (como as que nos deu o I Ching), as coincidências, as sincronicidades, os insights, os sonhos, as vias convencionais e as não convencionais dos sentidos. 

O alinhamento e a sincronicidade acontecem se eu me permitir me alinhar com essa energia, se eu me abrir a essa colaboração, ou cooperação, e não achar que tenho que definir tudo só com a cabeça. Quando eu me permito me harmonizar, me sintonizar, perguntar “Qual é a minha vontade, qual é a vontade do universo? Como eu estou servindo essa energia? Como estou servindo o universo? BETTINA 

Também não podemos nos deixar levar por uma política de resultados. Não é porque algo é dolorido, porque o processo está lento, porque a proposta não vingou que aquilo não deu “certo”. Há guardiões nos portais; paga-se um preço para entrar em novos e emocionantes territórios. Mas, superado o guardião, a recompensa virá. E é grande! Assim como na BLISS, nesse processo de seguir o fluxo costuma acontecer uma mistura dos temas que estamos tratando com a vida concreta. No nosso caso, a criação do livro e nossas circunstancias pessoais da época seguiram todos os passos de seu tema, a Jornada do herói: tivemos a Ruptura, a Iniciação, o Retorno. Vivemos na pele o assunto que tratávamos. 

Em um ano perdi minha mãe, comecei uma nova profissão, vendi uma casa, comprei outra, minha filha se casa, pela primeira vez passo a morar sozinha.Foi muita coisa! Com a Bia, não foi muito diferente. E, no meio disso tudo tem este trabalho, que para nós duas tem tanta importância e que, pelo visto, não obedece a nossas “ordens”, parece que tem “idéias” próprias. Talvez ele não esteja sendo tecido com o nosso intelecto, mas com a nossa alma. E como a alma tem sua própria sabedoria…Como disse a Ana, quando contamos o que estava acontecendo conosco: -“Mas vocês começaram a fazer essa Jornada e acharam que tudo ia ficar como antes?” 
CRISTINA 

Mas, conscientemente coerentes ou não, no final parece que nós fazemos o que somos e acabamos sendo o que mais fazemos. O Caminho nos molda tanto quanto nós moldamos o Caminho. 

Ah, aí eu descobri minha verve de expressão. As ouvintes eram só mulheres deprimidas. E, porque era o que eu sabia, eu falei de depressão, e foi o maior ibope do mundo.E elas começaram a vir para o consultório, e eu comecei a atender só mulheres deprimidas. Eu atendia muitas delas quase que de graça, porque eram pessoas que vinham por causa do programa do rádio e eu estava começando. Acabara de me formar e já tinha o consultório cheio, só com deprimidas. E eu deprimida. Era o consultório perfeito.

NEIVA 

Ampliando essa idéia, Jung disse que aquilo que procuramos também nos procura. Isso faz pensar se esse fluxo não estará presente desde lá atrás, desde quando começamos a Jornada, antes de termos muita consciência até de nós mesmos. 

Desde menina eu tinha muita intuição, de certa forma já vivenciava o mundo do não visto, dessa coisa do Tao que é invisível, inaudível. Sempre busquei isso; adorava ficar de olhos fechados, deitada, desligada… Acho que sempre fui mais céu…
JERUSHA 

Enfim, no modo do fluxo nós sabemos que navegamos sobre o mistério, mesmo sem noção da profundidade da água que nos sustenta. É bom que tenhamos a flexibilidade de um marinheiro, sempre atento às mudanças do rio. 
 
TRECHO DO LIVRO “MULHERES NA JORNADA DO HERÓI – PEQUENO GUIA DE VIAGEM”, de Beatriz Del Picchia e Cristina Balieiro, editora Ágora, 2012

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