O Feminino e o Sagrado um jeito de olhar o mundo

ATHENÁ e a sabedoria perdida

Seu mito 

Na verdade, Athená ou como também é conhecida – Pallas Atenas, tem e participa de inúmeros mitos gregos e o que vou contar aqui e dar uma interpretação é somente o mito de seu nascimento. 

Zeus estava casado com a deusa Métis (que quer dizer sabedoria) e ela fica grávida. Por causa de uma profecia de que teria com ela uma filha e depois um filho e que seria destronado por eles, Zeus engana Métis, finge que está brincando, pede a ela que fique pequenininha e, quando ela faz isso, a engole. Gesta então em sua cabeça a filha. Completado o tempo de gestação tem uma terrível dor de cabeça e pede que Hefesto, deus das forjas, lhe abra a cabeça com um machado. Então, de dentro da cabeça de Zeus salta Athená, adulta, vestida e armada, exatamente como nessa escultura da deusa aí ao lado! Torna-se a filha preferida do pai e é a única a quem ele empresta seus raios, o símbolo de seu poder. Athená é a deusa da estratégia da guerra, da inteligência, da Razão, da justiça – preside as artes, a literatura, a filosofia. É também a protetora de inúmeros heróis gregos. 

O que Athená pode nos ensinar 

Em primeiro lugar, apesar de ser uma Deusa, seu “reino” – o mundo intelectual – foi vedado as mulheres durante milênios. Somente a partir do século XX é que o “reino” de Athená começou a ser aberto a um grande número de mulheres que começaram a poder estudar, ir a universidades, produzir intelectualmente nos mais variados campos do conhecimento, ter um papel relevante nesse mundo do Logos*. Temos, enquanto mulheres, muito a festejar e honrar Athená. Seu reino, o mundo do intelecto, da razão nos permite hoje podermos ser donas da nossas vidas, protagonistas da nossa história e refletir sobre qualquer campo do conhecimento em nossos próprios termos. 

Mas, há também um lado bem sombrio para nós em Athená: ela se reconhece com filha SÓ do Pai – ela esquece que também é filha da Mãe (que foi engolida pelo Pai). Além disso, nasce adulta, vestida e armada. Traduzindo toda essa simbologia para os dias de hoje podemos dizer que nós, mulheres modernas, muitas vezes para nos adequarmos a esse mundo “do pai/patriarcal” vivemos armadas, nunca nos permitindo sentir como “crianças ou estar nuas” ou seja nunca vulneráveis e sensíveis. Também “não temos corpo”, a não ser que o vejamos como objeto a ser consertado e aperfeiçoado, pois afinal vivemos somente na cabeça! E, a sabedoria da Mãe ou do princípio feminino permanece esquecida, engolida, desvalorizada dentro de nós. Cabe a nós resgatar Métis e aprender uma forma de inteligência mais intuitiva, relacional, mais próxima da natureza e de seus ciclos, para equilibrar com a inteligência da Razão! Talvez nesse equilíbrio possamos encontrar a sabedoria, que tanto nos falta hoje! 

* Conceito filosófico traduzido como Razão. 

Texto de Cristina Balieiro

Esse artigo foi publicado anteriormente no site http://www2.uol.com.br/vyaestelar – na categoria A MULHER E O MITO, na qual escrevo quinzenalmente.

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