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Sobre tropicalismo e Torquato Neto – um poeta não se faz com versos


Nesse video, Jards Macalé canta e Paulo José (bem mocinho) declama um texto de Torquato Neto especial para os poetas e para os que gostam de poesia. 

Mesmo que não saiba quem é Torquato Neto, você conhece  muitas musicas dele, como  Pra dizer adeus (com Edu Lobo, Vem menina , Vento de maio e Louvação (com Gilberto Gil, Deus vos salve a casa santa (com Caetano Veloso).  Poeta, letrista, cronista, cineasta, ator, Torquato encarnou brilhantemente a piração hippie-revolucionária dos anos 60.
Na época, hippie e revolucionário eram consideradas posturas antagônicas e dava pau para muita briga – o próprio Torquato foi perseguido tanto pela ditadura militar quanto pela patrulha ideológica de esquerda. 
Hoje, isso se mistura na nossa Geleia geral(musica dele com o Gil), que é o que o  tempo costuma fazer com as mais puras intenções.  Como ele mesmo dizia:   Na geleia geral brasileira que esta revista anuncia: alguma novidade?… Mas o importante, eu continuo, o importante mesmo é não desistir nunca”.
Piauiense, baiano, carioca, londrino, brasileiro, esteve no coração da criação do que chamou de Cruzada Tropicalista:  – …” por dentro dessa história e à procura de um movimento pop autenticamente brasileiro, um grupo de intelectuais reunidos no Rio – cineastas, jornalistas, compositores, poetas e artistas plásticos – resolveu lançar o Tropicalismo… O que é? Assumir completamente tudo o que a vida dos trópicos pode dar, sem preconceitos de ordem estética, sem cogitar de cafonice ou mau gosto, apenas vivendo a tropicalidade e o novo universo que ela encerra, ainda desconhecido. Eis o que é.”
Atormentado e criativo,  “desafiando o coro dos contentes”,  entrando e saindo de internações para tratar do alcoolismo, de depressões e de contundentes polêmicas (“o chato, Hélio, é que ninguém aqui tem opinião sobre coisa nenhuma”),  Torquato acendeu a vela da vida pelos dois lados (“a realidade dá sua resposta e eu reajo a seguir”).
Sem medo – nem mesmo da contradição, pois “toda palavra encerra uma cilada” –  diz: “- Escute meu chapa: um poeta não se faz com versos”. É o risco, é estar sempre a perigo sem medo, é inventar o perigo e estar sempre recriando dificuldades pelo menos maiores, é destruir a linguagem e explodir com ela. Nada no bolso e nas mãos. Sabendo: perigoso, divino, maravilhoso… E fique sabendo: quem não se arrisca não pode berrar. Citação: leve um homem e um boi ao matadouro. O que berrar mais na hora do perigo é o homem, nem que seja o boi. Adeusão.”.
Torquato se matou um dia depois de fazer 28 anos, resvalando no mítico destino de  artistas malditos que morrem aos 27, Janis Joplin, Jimmy Hendrix,  Amy Winehouse.Se quiser saber mais, Toninho Vaz lançou sua biografia, Para mim chega, e se conseguir encontrar não deixe de ler seu único livro, Os últimos dias de Paupéria, onde está seu Cogito:
Cogito

eu sou como eu sou
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível

eu sou como eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos secretos dentes
nesta hora

eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim

eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranquilamente
todas as horas do fim.

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