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O Feminino e os Livros: A MULHER FERIDA

A MULHER FERIDA, foi escrito pela analista junguiana Linda S. Leonard e editado pela Summus Editorial em 1997. É focado na “ferida emocional”, muitas vezes bem profunda, existente em muitas mulheres em função da  relação com o  próprio pai, mas também, em certa medida,  pela cultura patriarcal. É um livro  importante para quem quiser se aprofundar no porquê tantas mulheres tem enorme dificuldade de lidar com o masculino em suas diversas manifestações. E o que é muito interessante, a autora se coloca de forma bem pessoal, começando pela complexa e sofrida relação que teve com o próprio pai. Conta que escrever esse livro fez parte do  processo de cura da sua ferida. 
Ele é dividido em três capítulos: A FERIDA, A MÁGOA e A CURA. 

No primeiro capítulo, o maior deles, A FERIDA, ela  descreve os diversos tipos de pais inadequados (normalmente em função das próprias questões psicológicas não tratadas): ausentes, rígidos, frios, distantes, ou mesmo que amorosos, fracos, viciados, infantis, dependentes, etc. Vai também fazer uma ligação bem próxima com a nossa cultura de valorização do princípio masculino e dos homens, em detrimento do princípio feminino e das mulheres.  
É a ferida do princípio masculino na mulher, que acarreta inúmeros problemas na sua relação com os homens, com o mundo “masculino” e com seu próprio princípio masculino interno. 

Divide as reações femininas a essa ferida em dois tipos de mulheres, nas suas palavras: a eterna menina e a amazona de couraça. Os dois tipos, que ela subdivide também em alguns outros subtítulos, não são necessariamente excludentes: muitas vezes diz que as mulheres se alternam entre essas duas atitudes. 

 A eterna menina ou puella é descrita por ela, entre outras coisas, nos seguintes termos: 
“…em vez de desenvolver-se nos planos pessoal e profissional, de elaborar sua própria identidade, de descobrir que realmente é através da difícil tarefa de autotransformação, a eterna menina em geral adquire sua identidade a partir das projeções feitas pelos outros sobre ela…”. 

Para a amazona de couraça ela usa, entre outros termos, da definição de June Singer (outra analista junguiana): 
“A amazona é a mulher que assumiu características em geral associadas à disposição masculina, mas, em lugar de integrar os aspectos “masculinos”que poderiam fortalecê-la como mulher, ela se identifica com o poder do “masculino”. 

São dois tipos diferentes , mas dois tipos de mulher ferida! Ambas precisam se desenvolver, porém a  cada uma cabem tarefas diferentes. 
Para a eterna menina a tarefa de autodesenvolvimento é que: 
“…renuncie seu apego a dependência, à inocência e à impotência infantis e que aceite a força que já está ali: que realmente se valorize”. 

Para a amazona de couraça a tarefa de autodesenvolvimento: 
“…envolve o ato de suavizar e acolher a receptividade para poder então contar com a integração desses elementos à força que já está desenvolvida, em favor da manifestação criativa de seu espírito feminino”. 

Difícil não se identificar, não?

No segundo capítulo, A MÁGOA, vai tratar sobre o caminho desse processo de cura: A Ira e as Lágrimas. Apesar de curto – são só 25 páginas – é de uma enorme sabedoria psicológica. 

E no último, A CURA, vai refletir sobre a tarefa que se apresenta o todos nós de lidarmos com nossas feridas ancestrais com o feminino (e com o masculino também) e dos caminhos possíveis de mudança dessa cultura patriarcal que gera tanto sofrimento. 

Apesar de tratar de temas psicológicos complexos, os ilustra fartamente com exemplos tirados das histórias e sonhos dela mesma e de seus pacientes, e com exemplos tirados da literatura, do teatro e do cinema, o que facilita muito sua compreensão e torna o livro agradável de ler, mesmo que as vezes dê um “nó no estomâgo”. 
Recomendo a todas e todos que trabalham com profundidade com o feminino e as mulheres. 

PS: Linda tem dois outros livros editados no Brasil, E A LOUCA TINHA RAZÃO, também editado pela Summus em 2003, sobre a criatividade e NO CAMINHO PARA AS NÚPCIAS, editado pela Paulus em 2000, na coleção Amor e Psique, sobre os relacionamentos amorosos. São todos muito interessantes e tratam das questões do feminino e de suas relações com o masculino com amplitude e profundidade. 

 

 

Texto de Cristina Balieiro

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