O Feminino e o Sagrado um jeito de olhar o mundo

O Feminino e os Livros: NAS TUAS MÃOS

NAS TUAS MÃOS, da escritora portuguesa contemporânea, Inês Pedrosa foi um livro que me causou forte impacto. Foi lançado em 2011 pela editora Objetiva, no selo Alfaguara e o li por agora. A emoção que ele causou ainda reverbera em mim! 

Como outros dois livros sobre o quais já escrevi posts – HANNA E SUAS FILHAS e NA CASA DA MINHA MÃE e como outros dois sobre os quais ainda vou escrever, trata de três gerações de mulheres, avó, mãe e filha. 
Todos os 5 livros, apesar de serem totalmente diferentes entre si, inclusive alguns são ficção e outros autobiográficos, tem em comum, como pano de fundo das histórias das 3 gerações de mulheres, o panorama da mudança social e cultural do papel das mulheres no correr do século XX e da história do próprio país das escritoras, o que para mim os torna particularmente interessantes! 
Mas, no mais são absolutamente diferentes e cada um tem seu encanto particular. 

Em NAS TUAS MÃOS, temos as três gerações: a avó Jenny, a filha Camila e a neta Natália. O que é bem original é que cada história é contada pela protagonista de um jeito – a de Jenny é através de seu diário, que escreve no fim da vida. A de Camila, que é fotógrafa, através do que escreve em um album de fotografias que monta baseado em fotos que marcam sua vida. E a de Natália, a história é contada através de cartas que escreve para a avó, quando é já adulta – mais ou menos na mesma época em que ela está escrevendo seu diário. Inclusive as últimas cartas escreve para a avó já morta. 

O livro trata de diversos temas e sempre sob a ótica do mundo interno das personagens. Mesmo que contando os fatos do mundo externo é seu impacto no interno que será focado. Muitos dos fatos que acontecem as três, inclusive, são narrados de forma diferentes por cada uma delas, porque a repercussão interna e a interpretação são diferentes. 
São três histórias fortes. 

Jenny, a avó, que nasce no começo do século XX e vive em Lisboa , é uma rica herdeira e se casa absolutamente apaixonada por um lindo homem chamado Antonio, que tem um amigo inseparável, Pedro que vai morar com eles. Na noite de núpcias, Jenny já descobre que Antonio é homossexual e seu grande amor é Pedro. Casou-se com ela para manter as aparências e pelo seu dinheiro. Eles nunca tem relações sexuais e ela morre virgem. Na verdade sua filha, Camila é filha de Pedro com uma judia, com quem ele tem um pequeno afair num dos momentos de briga com Antonio, e que morre num campo de concentração. Antes entrega a filha para Jenny criar. Jenny cria a menina como sua filha e só vai contar essa história para ela nas páginas do diário que escreve no fim da vida. 
Mas, apesar dessa história maluca ela nunca deixa de amar Antonio, fica muito amiga de Pedro e é feliz: feliz por amar! Os três tem uma vida meio louca ligada ao mundo intelectual e mantém uma casa aberta a essa Lisboa mais moderna e ousada, apesar de estarem na primeira metade do século XX e no tempo da ditadura portuguêsa de Salazar. 

Para mim, Jenny é a personagem mais sensacional. O que ela fala sobre o amor é muito interessante: amor como capacidade de amar e de como isso é suficiente. Nesse mundo em que todo mundo quer ser amado, pensar que amar é que é o “grande barato” dá o que pensar. E, apesar de morrer virgem, ela usa os sons do amor dos dois homens no quarto ao lado, para descobrir o auto-erotismo, possibilitando, a meu ver, páginas muito sensuais.

Camila também tem sua carga forte de drama: foi presa e torturada aos 18 anos, pela polícia de Salazar. Sai da prisão profundamente marcada, mas acaba se abrindo de novo para a vida quando conhece um rapaz por que se apaixona, mas ele morre de forma trágica. Vai então a trabalho a Moçambique onde conhece um guerillheiro, se relaciona com ele e fica grávida de Natália. Volta a Portugal e vai viver como mãe solteira e se engaja no feminismo e na luta pelo fim da ditadura em Portugal. 

Já Natalia, arquiteta, mulher da década de 90, meio desencantada e meio cínica, vai também, entre outras coisas refletir sobre o racismo (é mulata), a arte, o trabalho, as relações modernas, mas também fortemente sobre o amor! 
E o livro termina com ela e, na minha ótica, de forma muito linda: uma “ode” a beleza de amar!

Além de ter uma narrativa original, diferente, dramática é um livro escrito com muita poesia e consegue transmitir  de forma bastante profunda a complexidade do mundo interno feminino. E ainda um toque a mais,  mantém, só talvez com pequenas modificações, o português de Portugal, o que traz muito sabor à leitura. 
Achei o livro MARAVILHOSO! 

 

 

Texto de Cristina Balieiro

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