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Filme Blue Jasmine: a persona nas telas

Só agora assisti a esse filme do Woody Allen que, para um olhar junguiano, trata da persona, que é a figura que criamos para nos adaptar à sociedade e sermos aceitos, admirados e respeitados. Assim, a personagem principal, Jasmine  (Cate Blanchett)   é uma mulher magra, elegante, que sabe se cuidar e se relacionar com seu rico meio social.  Vinda de classe media, ao casar-se com um empreendedor milionário (Alec Baldwin) “achou-se” na sofisticada vida dondoca de Nova York. Então, quando o casamento desmoronou, perdeu todo dinheiro e despencou das alturas sociais, ficou totalmente perdida.
Persona em latim significa máscara, referendo-se àquela que os atores colocavam no rosto para desempenhar seus papeis no palco. Jasmine identificou-se tanto com seu papel que ao cair a mascara não havia ninguém por trás. Significativamente, até o nome original, que considerava vulgar e bobo, ela havia mudado para o mais elegante Jasmine. E agora não sabe quem é, o que fazer, nem como viver sem a dependência do homem que sustentava emocional e financeiramente o que ela era, a máscara. A gente conhece alguns casos assim, né?
Para recomeçar Jasmine precisa se refazer, ou melhor, des-cobrir a si mesma. Nada fácil. Acolhida pela irmã periguete (Sally Hawkins) em São Francisco, cidade lindamente mostrada no filme, quer modificar também a irmã e seus namorados e gostos vulgares. Agarrada à velha pose, agora sem nenhum respaldo, tenta sobreviver com comprimidos e álcool. Blue em inglês quer dizer triste e se refere a Blue Moon, musica tema de seu casamento, do qual ela não consegue se desligar. Ela tem um lado autodestrutivo que, por incrível que pareça, pode ser uma esperança, uma tentativa de seu eu verdadeiro para livrar-se da mascara e passar a existir como uma mulher real.
Ficamos com raiva e pena dessa trágica figura, que Cate desempenha tão magnificamente que em certas horas até consegue ficar feia. Para mim, este filme denso é quase uma parábola do preço que se paga por renunciarmos a nós mesmas para nos adequarmos totalmente ao que o sistema quer fazer de nós. E também por dependermos, exclusivamente e em todos os sentidos, de outra pessoa para ser quem somos. 
texto de Bia Del Picchia

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