O Feminino e o Sagrado um jeito de olhar o mundo

O Feminino e os Livros: A ASSINATURA DE TODAS AS COISAS

Vou indicar dois livros esse mês que li nas férias: puro deleite! O primeiro é o novo romance da Elizabeth Gilbert, A ASSINATURA DE TODAS AS COISAS, que saiu no final de 2013, pela editora Objetiva, no selo Alfaguara. 

Ao longo de suas mais de 500 páginas ela conta a vida da heroína da história, Alma Whittaker. Conta sua história desde o nascimento até estar próxima da morte, aos 80 e poucos anos. Aliás, o livro começa antes, com a história de seu pai, outro personagem fascinante. Alma é bióloga, mulher inteligentíssima, muito bem preparada em termos de cultura e uma cientista, uma bióloga que estuda musgos. 
Na contracapa do livro descrevem a personagem assim: 

Alma Whittaker nasceu na virada dos anos 1800, nos Estados Unidos, filha de um ambicioso botânico que construiu por conta própria uma das maiores fortunas da Filadélfia. Curiosa desde criança, e instruída com rigor pela mãe holandesa, ela aos poucos abraça a mesma devoção do pai e, sozinha, se dedica ao estudo das ciências naturais. 

Vejam o que Liz Gilbert diz sobre seu livro e sua personagem, em trechos de entrevistas que deu para o lançamento do livro: 

Em todos os momentos da minha vida, eu tentei escrever o livro que eu queria ler. …Este é um livro que eu gostaria que me dessem no momento em que eu estivesse indo passar uma semana na praia. “Você quer uma grande aventura? Aqui está”. 

A botânica era a única ciência na qual as mulheres eram benvidas no século 19, era considerado algo feminino. (…) E uma das coisas que eu amo sobre o século 19 é que as pessoas se dedicavam a trabalhos que levavam décadas, ao invés de minutos. E foi também o último momento da história em que uma pessoa normal podia entender o que se passava no mundo científico. (…) Alma passa sua vida estudando o que é microscópico e quase invisível. A história das mulheres com a criatividade, ao longo da história, foi em miniatura, em coisas pequenas, porque elas não podiam fazer trabalhos grandes. Não podiam viajar o mundo, não podiam escrever romances gigantescos. Elas podiam fazer trabalhos pequenos dentro de casa, com tecidos, e crochês e bordados. Sinto que musgo é um pouco a versão química desse pequeno trabalho que as mulheres fazem para manter a sua criatividade ativa e não enlouquecer. 
Há uma outra coisa que queria com este livro, porque sou uma leitora voraz de literatura do século 19: de maneira geral, a personagem feminina só tem dois tipos de final. Ou acaba no bom casamento como em Orgulho e Preconceito, ou sob as rodas de um trem, geralmente por causa de um erro sensual – Daisy Miller ou Anna Karenina. Um erro basta. E sinto que a realidade da vida de mulheres é mais sutil. Nas nossas vidas, a resposta não é ter encontrado o homem certo ou se arruinar. Há muito meio-termo. E essa realidade não está nas representações em romances. A maioria de nós acaba mais ou menos decepcionada, mas tendo uma vida interessante. A mulher pode não ter satisfação plena e ainda viver uma vida digna e fascinante. E chegar à conclusão de que valeu a pena. 

Eu tinha imaginado uma história em que ela nunca saísse do terreno de sua casa. Porque queria escrever sobre como uma mulher lida com a sua curiosidade e sua paixão quando não pode sair de casa. Mas aí, eu não pude fazer isso com ela. Ela tinha quase 50 anos e nunca tinha saído de casa! Ela precisava de uma aventura! E algumas dessas mulheres que pesquisei eram aventureiras. Viajavam mesmo. E tendiam a viajar quando eram mais velhas, aos 50 anos. Acho que na verdade é uma época ótima para viajar, porque você está sexualmente invisível, os homens não te veem e você pode viajar tranquila. 

O livro é uma delícia de ler e Alma, uma personagem incrível. Seu romance e casamento e sua descoberta da lei de seleção natural, ao mesmo tempo que Darwin são ficções originais, altamente imaginativas, surpreendentes e divertidas e, ao mesmo tempo, verossímeis. E o livro também é recheado de discussões sobre o mundo espiritual e o natural, a ciência e a espiritualidade. 
Já quase no final do livro vejam o que Alma diz, para sentirem o qual bacana é a personagem: 

“Vou lhe dizer uma coisa, sr. Wallace. Eu acho que sou a mulher mais afortunada que já existiu. Meu coração foi partido, sem dúvida, e a maioria dos meus desejos nunca foi concretizada. Decepcionei a mim mesma com meu comportamento, e outras pessoas me decepcionaram. Sobrevivi a quase todo mundo que amei. (…) Não tive uma carreira ilustre. Tive uma única idéia original na vida – e por acaso foi uma idéia importante, uma idéia que poderia ter me dado a chance de ser reconhecida -, mas hesitei em divulgá-la, e assim perdi a oportunidade. Nào tenho marido. Não tenho herdeiros. (…) Eu realmente acredito que sou afortunada. Sou afortunada porque pude dedicar a minha vida ao estudo do mundo. Assim, nunca me senti insignificante. (…) A essa altura, chegando a meu fim, posso dizer que sei um pouco mais do que sabia ao chegar. Além disso, meu pouco conhecimento foi somado a todo conhecimento acumulado pela história – somado à biblioteca, por assim dizer. Não é pouca coisa, senhor. Quem pode dizer uma coisa dessas teve uma vida afortunada.” 

Resumindo o que eu achei do livro, eu ADOREI! Foi extremamente saboroso lê-lo; como disse acima – puro deleite!

Texto de Cristina Balieiro

2 comentários

  1. elaine p b disse:

    Oi Cris,
    que sensível,
    vou atrás para conhecer Alma!

    Um carinhoso abraço,
    seguimos!
    Elaine

    1. crisbalieiro disse:

      Elaine, acho que vc vai adorá-la!
      Abraço
      Cris

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