O Feminino e o Sagrado um jeito de olhar o mundo

Quando o Self se manifesta… um sonho de cura

Quando ficavam doentes, os devotos de Asclépio,  deus grego da cura, iam a seu templo para dormir e provocar sonhos que depois eram interpretados como prescrições médicas pelos sacerdotes e iniciados. Nesse impressionante depoimento, a médica Denise conta uma experiencia que mostra que isso está longe de ser uma superstição do passado. O post foi publicado originalmente no site do IJEP (clique para acessar), onde Denise e eu  fazemos pós graduação em psicologia junguiana.  

“Vou começar a pinçar partes de uma história que me levou a estar atenta as mensagens do Self.  Não pensem que estou escrevendo a nível de ego, provavelmente quem for ler nem me conheça, mas conforme as palavras de Simone Magaldi: “ É também preciso ensinar e dar esperanças as pessoas.” Há alguns anos atrás fui aluna de Psicossomática e de Psicologia Junguiana ministrado pelos mestres Magaldi e Simone. Também tivemos aula de sonhos com Prof. Ascânio.
                Desde lá tenho cadernos e cadernos de sonhos, onde anoto quase que diariamente as mensagens que recebo do mundo noturno, do mundo de Hades.  Mensagens e recados muitos passaram, porém, outros continuavam a ressonar e vinham novamente de forma diferente pedindo para serem ouvidas.
                Faço analise por analista Junguiana em torno de seis anos.  Sigo a caminhada em formação. Entrávamos eu e meu novo caderno de sonhos.  Há alguns meses acordei-me com uma frase e anotei: É hora de acolher a negritude. É hora de dizer que não sabe. Esta mensagem levou ao contato com a humildade, o medo, a impotência.
                Estava a pressentir algo.  Referia como algo iminente por acontecer.  Havia algo, havia medo e isto levou a relação analítica.  Acho que vou ter que fazer um check up!  Sem paranoia, minha família tem alta incidência de câncer, acho que posso estar com um. Ao mesmo tempo o ego racional tomava a palavra e negava.  Decidimos em sessão analítica antecipar meus exames e o médico que vinha na minha cabeça era um oncologista. O modo com que lhe expus a situação faria e fez toda a diferença. Enfim ele acatou e fiz várias tomografias.  Dentre estas encontramos um nódulo pulmonar que pedia controle.
                O que faz este nódulo aí? Carinha de benigno, mas como saber? Questionando a academia a resposta era a de observar por quatro meses. Porém a pergunta que fiz foi: E se fosse no senhor doutor? Decidi por escolher o papa da Pneumologia em Porto Alegre. E novamente fiz esta mesma pergunta e a resposta foi a mesma: Em mim eu tirava.  Tudo indicava um nódulo benigno, mas como saber? Só retirando ou olhando ele crescer em tomografias seriadas.
                Novos sonhos vinham e deixavam claro que eu devia decidir.
                Fui, fiz e acordei na UTI com diagnóstico de um nódulo maligno já ressecado com margem de segurança.  Muitos dias de muita dor, muita paciência entrega e reaprendendo a respirar. Eis-que o laudo definitivo chega e estou curada. Nódulo pequeno, sem invasão e margens limpas.
                A quem devo agradecer? Esta pergunta tem como resposta muitas pessoas, meu processo, minha história, impossível abarcar tudo.  Já no pós-operatório a Simone me disse: Quando o Self se manifesta e nós ouvimos, é preciso agir. Minha analista refere-se ao termo oração como ação.  E penso que foi o grande diferencial, ouvi e fiz a minha oração – ação.
O inconsciente foi falando, dando sinais, havia intuições:
“É muito maior do que se imagina o numero de pessoas que têm medo do inconsciente. Tais pessoas tem medo da própria sombra. [] o próprio fato de vencer tal medo, quando isso ocorre, já representa uma façanha moral extraordinária, mas não é a única condição a ser satisfeita no caminho que conduz à verdadeira experiência do si mesmo.” (JUNG. Aion Estudos Sobre o Simbolismo do Si Mesmo §62).
Então conectada com o Self, não poderia deixar de seguir este chamado:
“No caminho para a maturidade psicológica existe uma passagem crucial, uma encruzilhada em que a escolha não pode ser feita ao acaso; a partir daquele momento de fato os dois caminhos divergirão irremediavelmente. Pode-se escolher o percurso que se apresenta mais fácil, representado pelo compromisso, pelo estar sempre em harmonia para evitar o mal-estar; ou em vez disso, aquele mais acidentado e inacessível, da coerência, da fidelidade a si mesmo, da autenticidade. O primeiro nos promete um passeio, o segundo uma aventura. Quem escolhe o compromisso empreenderá uma ‘visita guiada’ num passeio familiar, numa natureza domesticada, por veredas traçadas e ‘batidas’; quem escolhe a outra via assume o próprio risco e perigo num empreendimento solitário, numa terra inexplorada, onde, como em certos mapas antigos… [] Para aqueles que escolhem a via da autenticidade, semelhantes encontros não só são evitáveis, mas preciosos, porque os ajudam a tornar-se mais homens.” (CAROTENUTO, Eros e Pathos; Amor e Sofrimento p.200-201).
               Termino com as palavras acalentadoras que a Simone Magaldi me mandou: Ser avisada em tempo de acionar a consciência e buscar o que havia de real… Se você deu ouvidos ao Self é porque era para existir a cura.
                Minha gratidão e certeza que não sou dona de minha casa há sim um poder ordenador maior e que tem planos para mim.”     
M. Denise Vargas, Médica, especialista em Psicologia Junguiana e Psicossomática pelo IJEP/FACIS


post de Bia Del Pichia

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