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Trouble: a lição de um morador de rua


No final do ano passado eu atravessava o Pátio do Colégio, centro de SP, quando vi uma pequena aglomeração em volta do que parecia ser um mendigo. Aproximei-me. Era um boneco feito à imagem de um morador de rua, em tamanho natural, deitado num trecho da calçada onde eles costumam ficar.
 
E bem na frente, recostado nos degraus de um monumento, havia três deles. Depois vi que um era um boneco, mas os outros dois eram moradores de rua mesmo, olhando para o boneco.
Achei meio surreal a coisa toda e fui puxar conversa com um dos moradores de rua, que respondeu ao meu bom dia com um 
Good morning! 
Hein? perguntei.
Good morning, repetiu.
Se bem me lembro, seu nome é Paulo. De ótimo humor, ia encaixando expressões em inglês na conversa que tive com ele.
 It´s good, respondeu quando perguntei o que achava daquilo. Acrescentou, apontando o boneco: – Mas ele é uma representação. Eu sou de verdade. Real thing.
– E é bom ter ele por aqui?
Yes it is! Um pouco mais cedo, uma moça me deu um suco de laranja. E geralmente ninguém vê a gente. Very nice.
Nessa hora, apareceu um homem com um livro na mão. Apontou para o Paulo e falou para mim:
– Ele está assim porque não aceita Deus no seu coração!
E seguiu falando coisas deste tipo. Eu olhei para outro lado, os moradores de rua também. Sem ter atenção de ninguém, ele logo foi embora. Então, capturei o olhar do Paulo e perguntei, referindo-me ao homem:
– E aí?
Ele riu, apontou para as costas dele e afirmou categórico:
– Trouble.
Depois, monitores me informaram que essa instalação era parte de uma Campanha do Festival de Direitos Humanos. Ao lado dos bonecos, havia cartazes contando histórias de vida de moradores de rua. Várias pessoas paravam para ler e conversar com os monitores, comovidas ou interessadas; outros seguiam sem vê-los, bonecos ou gente.
Esse encontro me deixou pensando algumas coisas. Primeiro, como às vezes a gente acha que está ajudando alguém mas de fato estamos tentando dar-lhe (ou impor-lhe) soluções que servem para nós mas não para ele, como fez o homem do livro.  Mães também fazem muito isso. Mesmo que a intenção seja ótima,  a solução pode virar apenas “trouble”.  

Segundo, que não queremos enxergar gente como Paulo (como ele disse: “geralmente ninguém vê a gente”) porque ele mostra nossos problemas sociais, econômicos, nossos medos e preconceitos. E também porque ele é uma imagem de nossos moradores de rua internos, aquilo que não vemos em nós mesmos.

Mas nem por isso eles deixam de existir, e nem sempre reagem bem à soluções autoritárias ou simplistas, bem intencionadas ou não. Eles trazem questões em aberto, às quais eu não sei as respostas – mas sei que, sejam quais forem, terão que ser menos soluções do que tentativas, e devem ser respeitosas, humanas, criativas, corajosas. 
E estas questões são tão dele, Paulo, como de cada um de nós.
Post de Bia Del Picchia

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