O Feminino e o Sagrado um jeito de olhar o mundo

Não somos um, somos vários

Outro dia falei para uma paciente, bem jovem, que nós não somos UM, somos vários! Ela me olhou com um misto de susto, perplexidade e medo – realmente para uma jovem que vem buscando saber quem é, deparar-se com essa complexidade pode ser assustador! Mas a busca desse reconhecimento de tudo o que somos e a tentativa constante de integração de todas as nossas partes é o processo infindável – cheio de dor e de delícia – de nos tornarmos o máximo possível nós mesmos. 

Nada como o magnífico poeta Fernando Pessoa, prenhe dos múltiplos poetas que tinha dentro de si, para nos falar disso. 
Como Álvaro de Campos! 

Contudo 

Contudo, contudo, 
Também houve gládios e flâmulas de cores 
Na Primavera do que sonhei de mim. 
Também a esperança 
Orvalhou os campos da minha visão involuntária, 
Também tive quem também me sorrisse. 
Hoje estou como se esse tivesse sido outro. 
Quem fui não me lembra senão como uma história apensa. 
Quem serei não me interessa, como o futuro do mundo. 

Caí pela escada abaixo subitamente, 
E até o som de cair era a gargalhada da queda. 
Cada degrau era a testemunha importuna e dura 
Do ridículo que fiz de mim. 

Pobre do que perdeu o lugar oferecido por não ter casaco limpo com que aparecesse, 
Mas pobre também do que, sendo rico e nobre, 
Perdeu o lugar do amor por não ter casaco bom dentro do desejo. 
Sou imparcial como a neve. 
Nunca preferi o pobre ao rico, 
Como, em mim, nunca preferi nada a nada. 

Vi sempre o mundo independentemente de mim. 
Por trás disso estavam as minhas sensações vivíssimas, 
Mas isso era outro mundo. 
Contudo a minha mágoa nunca me fez ver negro o que era cor de laranja. 
Acima de tudo o mundo externo! 
Eu que me aguente comigo e com os comigos de mim.

1 comentário

  1. Ana Nazaré disse:

    Lindo ! Com certeza e felizmente ! :))

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