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Finados: por que temos tanto medo da morte?

É natural que tenhamos medo da morte, mas hoje em dia esse medo está mais forte do que antes. Por que? Na minha monografia da pós graduação junguiana  tratei um pouco disso, e compartilho aqui ideias baseadas na psicologia analítica.

Acontece que ao longo da história, todas as culturas conhecidas criaram algum espaço psicológico para a preparação e vivência digna do sofrimento, da morte, do luto e da esperança. Desde tempos imemoriais, as pessoas criaram concepções de um ou mais seres superiores e de uma vida no além. Só a época moderna acredita poder viver sem isso” , diz Jung. 

E uma consequência de “viver sem isso” é que “o medo da morte parece ter se constelado de modo particularmente elevado na época atual” (JAFFÉ). Ou seja, como não temos a religiosidade e espiritualidade de antes, a morte parece apenas algo físico, horrível e sem sentido.

Ao identificar-se apenas com o ego, ao equiparar e limitar a existência apenas à matéria, o inconsciente é ignorado, assim como qualquer elemento, metafísico ou não, que faça frente ao eu.

o homem religioso, no entanto, está acostumado com a ideia de não ser o único senhor em sua casa. Ele crê que quem decide em primeiro lugar é Deus e não ele” (JUNG).

Esta atitude é psicologicamente mais saudável, já que, sendo a vida um processo que inevitavelmente termina na morte, “voltar-se contra ela é algo de anormal e doentio que priva a segunda metade da vida de seu objetivo e seu sentido” (JUNG).

Além disso, a morte também é uma representação da limitação – e o limite, a renúncia e o desapego são o oposto dos valores materialistas, consumistas e competitivos. “Nossa educação aquisitiva e possessiva mobiliza nossas defesas contra qualquer tipo de perda. (…) Essa mentalidade aquisitiva está profundamente enraizada em toda a nossa atividade.” (KELEMAN). 

Então, até as pequenas mortes que acontecem ao longo da vida – as inúmeras perdas, abandonos e forçadas abdicações do controle – são consideradas derrotas assustadoras e de difícil elaboração.

Mas, simbólica ou concretamente, Jung diz que “(…) só aquele que se dispõe a morrer conserva a vitalidade”. Para esta pessoa, a morte pode se apresentar, conforme é a interpretação  de seu arcano do tarô, como a representação máxima da transformação: “nascimento e morte permeiam a vida humana, e estão presentes em cada experiência de transformação.” (JAFFÉ).

Assim, ainda segundo Jung, é preciso posicionar-se sobre o mistério do além: “o homem deve provar que fez o possível para formar uma concepção ou uma imagem da vida após a morte (…). Quem não o fez, sofreu uma perda”.  Ou seja, todos precisamos ter uma concepção pessoal sobre o sentido da morte – o que traz, por conseqüência, o sentido da vida.

Post de Bia Del Picchia

5 comentários

  1. Lindo post, Bia!
    Assim como na era vitoriana o sexo era o grande tabu. Na nossa era do gozo eterno e felicidade instantânea, a morte é o tema tabu.
    A vida é uma preparação para a morte, só morre bem quem viveu bem e teve sua finitude como conselheira.
    Bom feriado!
    Bjs

  2. E precisamos afrontar tabus, sejam eles quais forem, não é, Cristiane?
    bjs!

  3. Carol Costa disse:

    Bia, acompanho o blog há muito tempo… Acabei de passar por uma perda gestacional (relato minha experiência no blog http://estrelinhahelena.blogspot.com.br), antecedida pela perda também do meu irmão caçula aos 29 anos (em 2013) e da minha sogra aos 57 anos (em 2014). O luto tem feito parte da minha vida… Seu post trouxe muita luz porque desenvolvi também um quadro de pânico (que é o medo da morte). Estou em terapia e utilizo apenas medicamento homeopático. Suas palavras trouxeram compreensão há minha necessidade de controle e dificuldade em aceitar a finitude da vida. Gratidão por ter sido tão inspirada! Gratidão por estar em meu caminho, assim como a querida Cristiane Marino 😉 Beijos e abraço afetuoso

  4. Carol, obrigada pelas boas palavras e por compartilhar sua experiencia e respostas ao lado sombrio da vida. Ao ler, lembrei que Zweig disse que " buscar a verdade significa experimentar a dor e a escuridão, bem como o luminoso lado branco da luz.”
    De uma buscadora a outra, mando grande beijo e desejo muita luz para você

  5. Carol Costa disse:

    Gratidão pelo carinho, Bia! Um beijo e abraço afetuoso

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