O Feminino e o Sagrado um jeito de olhar o mundo

Avós ensinam a íntima e feminina proximidade da carne

Como a velhice pode ensinar “as verdadeiras lições do amor erótico com suas carnes maravilhosamente carentes e seus rostos expressivos”? Dessa sabedoria física, material, carnal e feminina é que fala Jane Rule nesse belo texto tirado do livro Espelhos do Self  (p.68).
A foto é de uma tia minha que parece uma fadinha, luminosa como as plantas que tanto ama.

“Eu amava todos os meus avós, mas eu amava o corpo das minhas avós, ambas padecendo de artrite, como eu agora. 

Eram frágeis e determinadas no modo de se movimentarem, e, a partir do momento em que cresci e fiquei forte o suficiente para ajudar de alguma maneira, usaram meu corpo como suporte ou alavanca. Desde cedo me ensinaram como tocar a dor e confortar porque estavam à ingênua mercê do meu amor.
Para mim, o rosto delas era mais encantador do que todos os outros da minha infância porque tinham sido feitos, podiam ser entendidos como não era possível com o rosto em branco das outras crianças, e até como os de meus pais que também eram impenetráveis, uma vez que eles ainda não se conheciam nem acobertavam a própria auto ignorância o melhor que podiam. Minha mãe tem esse rosto extraordinário agora.
Tive um longo aprendizado como amante e, do modo que me é possível, ainda desempenho os padrões da corte e da sedução, mas estou chegando numa época que devo ser a querida das crianças e dos jovens, os quais irão avaliar sua confiança em termos de minhas necessidades cada vez maiores.
Assim como minhas avós me ensinaram as verdadeiras lições do amor erótico com suas carnes maravilhosamente carentes e seus rostos expressivos, assim desejo ensinar às crianças que amo que elas são capazes de ternura e força, de conhecimentos, por causa do que virem no meu rosto, nítido na dor e no deslumbramento, firme no intento de praticar a vida enquanto ela me durar.”
Jane Rule

Post de Bia Del Picchia

3 comentários

  1. O encanto é dessa minha tia e de tantas tias e vovós maravilhosas…
    beijo, Cristiane!

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