O Feminino e o Sagrado um jeito de olhar o mundo

Trançando as tranças…


Eu adorava quando minha avó fazia tranças em mim, principalmente quando ia trançando uma fitinha de cetim cor de rosa  junto com o cabelo. Era uma coisa tão boa, gostosa e bela que nunca pensei na força que me trazia, e que até hoje a simples lembrança dela ainda me traz.   

É disso que fala esse texto poético e mitológico de forte empoderamento para nós, mulheres. 

A autora é uma mexicana contemporânea, chama-se Paola King e seu blog é

O vídeo está em espanhol,  mas abaixo está  a tradução.

Trenzaré mi tristeza / Paola Klug

“A minha avó dizia-me que quando uma mulher se sentisse triste, o melhor que podia fazer era entrançar o seu cabelo; de modo que a dor ficasse presa no cabelo e não pudesse atingir o resto do corpo.

Havia que ter cuidado para que a tristeza não entrasse nos olhos, porque iria fazer com que chorassem, também não era bom deixar entrar a tristeza nos nossos lábios porque iria forçá-los a dizer coisas que não eram verdadeiras, que também não se metesse nas mãos porque se pode deixar tostar demais o café ou queimar a massa. Porque a tristeza gosta do sabor amargo.

Quando te sintas triste, menina- dizia a minha avó- entrança o cabelo, prende a dor na madeixa e deixa escapar o cabelo solto quando o vento do norte sopre com força. O nosso cabelo é uma rede capaz de apanhar tudo, é forte como as raízes do cipreste e suave como a espuma do atole.

Que não te apanhe desprevenida a melancolia minha neta, ainda que tenhas o coração despedaçado ou os ossos frios com alguma ausência. Não deixes que a tristeza entre em ti com o teu cabelo solto, porque ela irá fluir em cascata através dos canais que a lua traçou no teu corpo. Trança a tua tristeza, dizia. Trança sempre a tua tristeza.

E na manhã ao acordar com o canto do pássaro, ele encontrará a tristeza pálida e desvanecida entre o trançar dos teus cabelos…”

Post de Bia Del Picchia

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