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Heroínas do Brasil – Cora Coralina

Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas, conhecida como Cora Coralina (1889 / 1985): poeta, contista e doceira
 

Aninha ou Cora foi mais uma mulher ousada e corajosa, que desafiou os costumes da época. 
Ela nasceu na cidade de Goiás, na época a capital do mesmo estado. Sua família tinha origens aristocráticas e foi educada em casa por uma mestre-escola, cursando o equivalente aos quatro primeiros anos primários. Adorava ler e aos 14 anos começou a publicar contos e poemas em jornais da cidade. Usava o pseudônimo Cora Coralina para fugir da repressão da família, que não queria que ela escrevesse e muito menos publicasse seus escritos em jornais. Não “ficava bem” para uma mulher!

Frequentava o Clube Literário Goiano e lá conheceu o advogado Cantídio Tolentido de Figueiredo Bretas, delegado de polícia da cidade, separado e 22 anos mais velho. Os dois apaixonaram-se e em 1911, Cora, com 21 anos,  fugiu de Goiás para ficar junto com Cantídio, escandalizando a cidade. 
O casal foi morar no interior de São Paulo. Tiveram 6 filhos, mas somente 4 que sobreviveram. Casaram-se oficialmente somente em 1926 quando ele ficou viúvo. Durante os anos em que viveu com seu companheiro, continuou escrevendo, porém não publicou quase nada, somente contribuindo esporadicamente com artigos para jornais das regiões de Avaré e Jaboticabal. 
Cora e família moraram em várias cidades do interior paulista até 1934, quando o marido faleceu.Com a morte dele mudou-se com os filhos para São Paulo, capital, onde para sustentar a si e aos filhos trabalhou como vendedora da Livraria José Olympio. 

Ao completar 50 anos, em 1939,  ela relata ter passado por uma profunda transformação interior, a qual definiria mais tarde como “a perda do medo”. Nessa fase, deixou de atender pelo nome de batismo e assumiu o nome que escolhera para si muitos anos atrás: Cora Coralina. 

Em 1945, aos 56 anos, retornou definitivamente para Goiás indo morar na velha casa da Ponte do Rio Vermelho, onde nasceu. Sua casa vivia aberta para vizinhos, turistas e especialmente crianças, que entravam e saíam quando queriam. 
Lá, Cora, exímia doceira fazia e vendia seus doces e fazia e recitava suas poesias. Considerava os doces cristalizados de caju, abóbora, figo e laranja, que encantavam os vizinhos e amigos, obras melhores do que os poemas escritos em folhas de caderno. Trabalhou como doceira por mais de vinte anos para poder sobreviver. 

Aos 70 anos, decidiu aprender datilografia para preparar suas poesias e enviá-las aos editores. Teve seu primeiro livro publicado em junho de 1965  – Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais –  quando já tinha quase 76 anos de idade. 
Começou então a ter seu talento literário reconhecido por todo Brasil: esse seu livro, por exemplo, teve mais de 10 edições nos anos seguintes. 
Um de seus grandes admiradores, com quem passou a corresponder-se foi o poeta Carlos Drummond de Andrade. 

Cora  recebeu o título de Doutor Honoris Causa da Universidade Federal de Goiás em 1983 e no mesmo ano, foi eleita intelectual do ano e contemplada com o Prêmio Juca Pato da União Brasileira dos Escritores. 
Aos 94 anos admitia estar vivendo o melhor tempo de sua vida! 

Próxima quarta-feira, dia 23/03, JOSEPHINE DUROCHER

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