O Feminino e o Sagrado um jeito de olhar o mundo

Refletindo sobre mulheres, história e o princípio feminino – final

Hoje termino de postar a conversa que tive com o grupo de jornalistas no evento da Scania.

O que o mito de Atená pode nos ensinar?

• Em primeiro lugar que apesar de ser uma deusa, o reino de Atená foi vedado as mulheres durante milênios e que só na verdade no século 20, a partir da luta de inúmeras mulheres foi que pudemos ter real acesso a seu mundo. Todas nós estamos aqui hoje por causa disso. Esse encontro seria inimaginável há 200 anos atrás! E isso é maravilhoso!
• Mas Atená tem um lado sombrio. Ela se considera somente filha do Pai, ela nem lembra da Mãe. Pensando em termos simbólicos a sabedoria da mãe ou do Princípio Feminino permanece esquecido, engolido, desvalorizado. Nós entramos no mundo “masculino” do trabalho agindo com homens, usando como base quase única o Princípio masculino. Nós nos armamos de armaduras de guerra como Atená, nunca nos permitindo o sentimento espontâneo das crianças ou a nudez – lembram que ela nasceu adulta, vestida e armada? Jamais nos permitimos a vulnerabilidade e sensibilidade, a não ser nos momentos de “fraqueza ou solidão” que muitas vezes nos envergonham. Também “não temos corpo”, um corpo de fato vivo, a não ser que o vejamos como objeto a ser consertado e aperfeiçoado, pois afinal vivemos somente na cabeça!
• E pior, acabamos levando esse princípio masculino e suas regras para nossa vida pessoal e sofrendo, nos sentindo incompetentes, fracassadas, culpadas, quando não exercemos nossos papéis seja de mulher, mãe, dona de casa, amiga, profissional ou não conduzimos nossas vidas com nada menos que a perfeição. Esquecemos que a vida é um fluir, feito de luz e sombra, que ela não é perfeita, é muito mais caótica e complexa que racional.
• E não tivemos contrapartida: não levamos a sabedoria específica do Princípio Feminino para o mundo do trabalho, tornando-o um lugar mais inclusivo e acolhedor.

Isso tudo tem causado muita confusão e muita dor para todas e todos nós. Precisamos com urgência resgar a sabedoria de Métis: tirá-la de dentro do Pai!
E como podemos fazer isso? Nós mulheres juntas, em redes, em círculos, em eventos, onde possamos tirar a fantasia de super-heroínas, nos desarmar e conversar sobre coisas que importam de verdade, como diz Clarissa Pinkola Estés.
A gente está vendo muito disso acontecer, pessoal ou virtualmente. São grupos de mães que se juntam para falar das dificuldades e dos prazeres da maternidade, são empreendedoras que se juntam para se fortalecer e trocar experiência, são executivas que se juntam em grupos de empresas para falar da especificidade de ser mulher em cargos de liderança, são coletivos feministas de diversos matizes, são mulheres da periferia, são blogueiras, grávidas, bordadeiras, mulheres que buscam a espiritualidade da deusa e mil outras formas de reunião de mulheres.
É através das nossas conversas francas, honestas e do sentimento de solidariedade que pode brotar entre nós que poderemos resgatar a Métis engolida dentro de cada uma e trazer de volta ao mundo a sabedoria do princípio feminino estabelecendo a harmonia entre os dois princípios e curando o desequilíbrio que tanto nos faz sofrer, mulheres e homens. Não é se tornar feminina no trabalho, é muito maior que isso – é trazer o jeito feminino de olhar o mundo para o mundo.

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