O Feminino e o Sagrado um jeito de olhar o mundo

O Feminino e o Sagrado


Acredito que são muito diferentes os modos como o Feminino e o Masculino se aproximam dessa dimensão. Gostaria de deixar claro que agora estou falando de feminino e masculino, e não das mulheres e dos homens, pois um homem pode agir de forma feminina e vice-versa. Essa forma feminina insere o Sagrado no cotidiano, trazendo Alma ao mundo e abrandando essa cultura árida.
Para a forma masculina de ver, o Sagrado é sempre transcendente, está longe e acima do humano, e dele devemos nos aproximar com muito respeito e reverência. A busca é da religação com o Divino. E para isso se erguem catedrais, sinagogas, mesquitas… e se instituem as religiões.
Já a forma feminina vê o Divino muito mais próximo e ao mesmo tempo mais disperso, mais multifacetado e cotidiano. O Sagrado é mais uma experiência pessoal, a sensação de pertencer a algo maior, de estar imersa em um Mistério que pode nos trazer espanto, reverência e êxtase, mesmo que não tenhamos linguagem para defini-lo. Ele se manifesta e se revela em muitos lugares!
Podemos senti-lo nas múltiplas Deusas e na conexão sutil que podemos ter com elas. Cada uma delas está, ao mesmo tempo, acima de nós, ao nosso lado e dentro de nós: são as nossas Mães Sagradas.
Além das Deusas, o Divino também está na natureza e sempre à nossa disposição. Se nossa alma está presente, a conexão com o Sagrado se estabelece!
O Divino, o Mistério, também pode ser “tocado” nos sonhos, nos encontros sincrônicos, nos oráculos, nas intuições que de forma sutil nos encaminham para a jornada que tem que ver com nossa alma. É como se fôssemos guiadas por algo que nos sabe mais do que nós mesmas e que nos leva para o caminho que devemos trilhar.
O Divino, o Sagrado, também é encontrado pelo Feminino nas relações. No sentimento de amor real e profundo, sem ilusão ou falso romantismo, que surge quando olhamos e reconhecemos com ternura nosso companheiro ou companheira de vida. No encontro com o profundo mistério da vida, quando, de repente, se contempla um filho dormindo ou quando se vive o nascimento de um neto. No encontro com o profundo mistério da morte, quando damos adeus a alguém muito querido que se despede da vida.
No abraço de uma amiga ou de um amigo que nos acolhe e nos faz sentir que não estamos sós nesse mundo. No sentimento de compaixão por Nós e pelo Outro, pelo nosso humano, demasiadamente humano!
Concluindo, para a forma Feminina de experimentar o mundo, o Divino, o Mistério, o Sagrado não está lá longe, num céu, num livro ou num templo. Está no aqui e agora.
É no cotidiano que a dimensão sagrada se manifesta desde que tenhamos a atitude religiosa – mesmo que sem religião –, não só de religare, fazer a religação com o transcendente, mas de religere, que literalmente significa reler e reescolher, mantendo sempre a atenção cuidadosa e reverente aos sinais da Vida.

Trechos do livro O LEGADO DAS DEUSAS

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