O Feminino e o Sagrado um jeito de olhar o mundo

“O futuro será feminista e feminino”, por José Eduardo Agualusa

Nesse texto, publicado no jornal O Globo o escritor angolano José Eduardo Agualusa conta uma linda história sobre livros, mulheres e o futuro.

Há poucos dias coordenei em Luanda uma oficina literária sobre o tema “Escrever a partir de sonhos”. O título foi sugerido pela organização do evento, a plataforma Pés Descalços, com o apoio do Goethe-Institut. Tentei cumprir com a proposta, até porque eu próprio uso sonhos para escrever. Sou um sonhador profissional.
Das treze pessoas na sala, onze eram jovens mulheres. Até ali nenhuma surpresa, pois em todo o mundo as mulheres leem muito mais do que os homens. A literatura vem-se transformando num ofício feminino. Além disso, Angola é um dos poucos países no mundo onde os jovens são ainda a larga maioria.

O objetivo da oficina era conseguir escrever, ao longo de escassas seis horas, um conto destinado a um público mais jovem, entre os nove e os treze anos.

A primeira surpresa (para mim) aconteceu com a escolha do tema: a menarca. “Excelente desafio!”, comentei, esforçando-me para que o grupo não percebesse o meu susto. “Agora vamos recolher sonhos que tenham alguma ligação com o tema.”

No final do dia tínhamos um conto pronto, muito bem fechado, delicado, poético e comovente, sobre os ciclos da vida e o poder das mulheres. O título, “A concha mágica”, foi também uma escolha do grupo.

Escrever para crianças e adolescentes é muito difícil. Em primeiro lugar há o desafio de seduzir leitores inexperientes. A linguagem deve ser rica, sem ser inacessível; formativa e informativa, sem parecer uma dissertação. Deve ter humor e poesia. O escritor precisa recuperar o olhar inaugural das crianças, ou seja, precisa voltar a ver o mundo como se fosse pela primeira vez. Em segundo lugar, crianças estão atentas aos detalhes e não perdoam erros. Se gostam de um livro irão lê-lo, ou obrigar os pais a lê-lo, até saberem de cor parágrafos inteiros.
Depois de ler o nosso conto, o escritor moçambicano Mia Couto, que esteve comigo em Luanda, integrado no mesmo projeto, mas trabalhando com outra equipe, confessou-me: “Nem eu nem tu teríamos coragem para escrever um conto como este”. Dei-lhe razão. Ao mesmo tempo, o que impressiona é que não existam livros (mais livros, muitos livros) sobre um tema tão importante na vida de uma menina. Livros que consigam transmitir às meninas e aos meninos e aos pais deles o que é essa experiência, a menarca, que o silêncio e a ignorância tornam tantas vezes assustadora.

Como na literatura para adultos, não existem na literatura para crianças e adolescentes temas bons ou maus; o que há são livros maus e livros bons. Existem, contudo, temas mais urgentes do que outros.

Percebi, em Luanda, que embora o mundo esteja a viver um momento de refluxo, com a emergência de movimentos ultraconservadores, machistas e misóginos, um pouco por todo o lado, estes não conseguirão reverter as conquistas alcançadas pelas mulheres e pela Humanidade em geral.

A mulher é o futuro do homem, dizia Aragon. Vou além: o futuro será feminista e feminino — ou não haverá futuro.

3 comentários

  1. Puxa, despertou meu interesse!
    Onde está A Concha Mágica?
    Quero ler.

  2. mirtes fonseca disse:

    gostaria de ler A concha magica. onde encontro?

    1. crisbalieiro disse:

      Mirtes, só reproduzi a reportagem que saiu no Globo. Infelizmente não sei te dar essa informação.
      Abraço
      Cris

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