O Feminino e o Sagrado um jeito de olhar o mundo

Desafios enfrentados por ser mulher

No capítulo 4 do nosso novo livro falamos dos desafios enfrentados por nossas entrevistadas especificamente por serem mulheres e como o enfrentamente deles também as preparou para trabalharem com outras mulheres. São desafios enfrentados também por muitas, muitas de nós. Segue um pequeno trecho.

(…) vamos falar daqueles (desafios) que elas enfrentaram pessoalmente por ser mulheres e muitas vezes foram parte importante da jornada que as levou a trabalhar com os círculos.

O que podemos dizer que elas compartilham especificamente por ser mulheres?
Duas coisas: a vivência de “habitar” um corpo feminino e a experiência de ser mulher numa cultura que cria expectativas sobre os papéis, comportamentos, atitudes e até sentimentos que seriam adequados ao nosso gênero. Essas expectativas existem tanto fora de nós – na família, no entorno, na sociedade (e reforçadas por inúmeros meios de comunicação) – como dentro, de modo conscientes ou não.

A comparação entre o que é esperado pela cultura que uma mulher “sinta” e o que ela verdadeiramente sente – muitas vezes, coisas bem diferentes – pode fazer que ela se ache errada, inadequada e culpada sem perceber que a origem do problema não está nela, mas na visão estereotipada de como deve ser e viver uma mulher.
E qual é a consequência disso? Nossas experiências pessoais como mulheres, especialmente aquelas que vivenciamos com o corpo, não são legitimadas completamente até por nós mesmas porque usamos parâmetros da cultura sobre o jeito “correto” de vivê-las.

Isso pode levar a mulher a se alienar de si, a perder sua alma e se afastar da sua “natureza selvagem”. E, como diz Clarissa Pinkola Estés (1994, p. 23-26),

a Mulher Selvagem é a saúde para todas as mulheres. Sem ela, a psicologia feminina não faz sentido. Essa mulher não domesticada é o protótipo de mulher. A natureza selvagem implica delimitar territórios, encontrar nossa matilha, ocupar nosso corpo com segurança e orgulho independentemente dos dons e das limitações desse corpo, falar e agir em defesa própria […] recorrer aos poderes da intuição e do pressentimento […] adequar-se aos próprios ciclos […] e manter o máximo de consciência possível.

Essa cisão interna vem de muito longe.Quando falamos sobre as mães das nossas entrevistadas, vimos como essa dissociação traz ambiguidades e contradições para o comportamento feminino.

Nas palavras de Cler,

acredito que a ferida do feminino é uma questão sistêmica, não é uma ferida minha, que veio da minha família ou das minhas antepassadas, mas é uma ferida de gênero. Você nasce mulher, você nasce com essa ferida.

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