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Euá, a Senhora das visões, dos sonhos, da arte, da vidência – parte 2

Na sequência da parte 1 do post da semana passada, trago aqui mais sobre essa misteriosa orixá, as características de suas filhas, e algumas ideias sobre sonhos, seu tema principal. 

Como Senhora dos disfarces, Euá carrega numa cabaça um pó encantado que camufla ou faz desaparecer quem quiser se proteger. Assim, um mito conta que o camaleão e o sapo – bichinhos indefesos, desprezados, pequenos e perseguidos pelos outros – pediram que Ela os protegesse. Euá, que não gosta de injustiças, se sensibilizou com eles e lhes deu um dom: a partir daquele dia eles podiam adquirir uma forma diferente e confundir os perseguidores.

Ela também ajudou uma moça feia que não conseguia namorado dando-lhe uns potinhos para passar no rosto – a moça ficou linda e se casou rapidinho. Dizem que era como uma espécie de maquiagem…

Euá é implacável com malfeitores e folgados, e é parceira de Obá como protetora das amazonas. Gosta de solidão, silencio, vive em florestas ou em cemitérios ou em fontes de água. Ela não tem um humor dos melhores e guarda ressentimento de quem a ofende; quando furiosa é implacável e todos a temem. Não se liga muito nos homens, mas se apaixonou pela beleza de Oxumaré, o arco íris, e ele a levou para suas alturas transformando Euá numa faixa branca do arco íris. Em outra lenda, Oxumaré é irmão de Euá e a leva com ele para ela não precisar se casar aqui na terra.

As filhas de Euá são poucas, até porque Ela exige delas um comportamento impecável e altos valores no dia a dia. E para descer exige castidade e ascese. Tendo o dom da vidência, Euá sabe o presente, passado e futuro, e dá esse dom a seus filhos e filhas merecedores, mas se eles falham Euá os passa para Oxum ou Oiá, que são mais tolerantes.

As filhas de Euá são tidas como pessoas que ferem os outros, porque Ela não gosta de mentira e quer que falem o que passa no coração, o que não facilita a vida de ninguém… Elas têm natureza sincera, transparente, gostam de manter as coisas arrumadas até como uma forma de alcançar a beleza no cotidiano. São criativas e artísticas com tendência intelectual e espirituais, não se ligando muito em dinheiro. São sensíveis, irrequietas, ciumentas e exigentes. Gostam de animais domésticos e não aguentam gente burra, cafona e grossa.

Mas os sonhos e a vidência são o principal tema de Euá. Ela concede que em alguns sonhos tenhamos premonições ou visitemos o Orum, o outro mundo, o inconsciente coletivo em termos junguianos. Mas a maioria dos sonhos mostra o inconsciente pessoal, trazendo a nossa verdadeira posição em um assunto do dia a dia. Eles expõe em linguagem simbólica (própria de Euá, como já colocado no post da semana passada) o que queremos ou não queremos de verdade, do que temos medo, etc. Eles são a única forma absolutamente honesta de informações sobre nós mesmas, porque no discurso racional a gente se ilude facilmente.

Então, é importante dar importância a sonhos porque eles ajudam tanto em questões psicológicas como nas místicas, nas vidências e premonições. A psicoterapeuta M Louise Von Franz fala que um sonho no qual não se trabalha – escreve ou pensa ou desenha ou fala ou interpreta – é como uma carta que não se abre, vinda de alguém importante:  da nossa alma. Por isso toda feiticeira deve ter um livro de sonhos, afirmam os manuais de bruxarias. Não a toa, Euá é ligada às feiticeiras yorubás…

Finalizando: de todas as danças de Euá, uma das mais interessantes é a que se junta as mãos como quem apanha água e joga o conteúdo para cima, dando a impressão de que se está recolhendo e passando alguma coisa mágica para nós. E, de fato, deve estar mesmo!

Fonte: livro Euá, da Cleo Martins, Ed Pallas.

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