O Feminino e o Sagrado um jeito de olhar o mundo

Iroco, o orixá-árvore

crédito: Anastacia Jean Kyrissoglou

Um pouco sobre Iroco, tema que tratamos em julho no Encontro de Mitologias. A fantástica imagem é de Anastácia Jean Kyrissoglou, que esteve conosco nesse Encontro, e a fonte das informações é o livro Iroco, de Cleo Martins  e Roberval Marinho.

Iroco é um orixá e também é uma arvore sagrada que tem raízes no céu. É simbolizado por diversas árvores daqui da terra  (no Brasil, o fícus é uma delas). Como em muitas tradições, árvores ligam o céu com a terra, mas na maioria a arvore é feminina e nessa é masculina.

O pé de Iroco é refúgio dos mortos, morada dos deuses, local de renascimentos, de fazer pedidos e depositar oferendas, casa de seres encantados, bruxas, feiticeiros e de abicus (espíritos de crianças marcadas por muitas mortes e retornos à vida). Por isso é perigoso ficar embaixo dele depois que anoitece.

Iroco também é um símbolo do tempo, a arvore da eternidade. Vemos que o tempo age sobre as arvores, envelhecendo-as e nos fazendo pensar numa divindade que assim se humaniza um pouco. Porém, é da eternidade porque as raízes dele procuram nova vida quando a arvore velha tomba, indo ao encontro de novos locais ou de hospedeiros. Daí também vem lendas de que as arvores caminham… De fato, você pode ver que as raízes do fícus lembram pernas vindas de cima para baixo.

E Iroco não pode ser cercado. Não suporta limites, casa, cerca, nacionalidade – cada uma tem sua graça. E ele cresce muito, mais rápido que os outros seres. Qdo perguntaram porque ele crescia tão rápido, Iroco disse que é por que a seu lado está seu irmão invisível, Nió, que é o senhor do crescimento e que não quer ser visto. Euá então determinou que ninguém poderia ver o crescimento dos seres: se alguém fica olhando para algo que cresce, o crescimento se interrompe. Pensei cá comigo, brincando: será por isso que o leite não ferve quando a gente olha…?

Sua cor é o branco, cor ligada aos ancestrais e à transformação. Os orixás que têm a cor branca são os mais turbulentos – como Xangô, que é vermelho e branco, justamente porque o branco equilibra suas energias mais violentas. Filhos e filhas de Iroco são teimosas, gostam de viver, comer, beber, ensinar, são sensuais, adoram dançar, fazer transgressões, ter segredos, falar pouco, dissimular emoções.

Enfim, Iroco é uma arvore que opera milagres, hospeda orixás, seres amáveis e outros perversos ou complicados, impõe limites para o convívio com os humanos e tem seu lado menos luminoso junto com o mais brilhante. Para que Iroco nos ajude é preciso que a gente lhe dê presentes, depositando as oferendas em seu pé. Eró, iroco! Arrô bo boi!

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