O Feminino e o Sagrado um jeito de olhar o mundo

Mais sobre a Velha…


As religiões da Deusa viam a existência como um vir-a-ser, como uma transição permanente, sempre mudando, passando do entardecer para a noite e para a manhã e assim por diante. A vida como eterna dança da criação, como o eterno fluxo da vida-morte-renascimento simbolizados pela figura tríplice da Deusa como donzela – mãe – velha, para depois voltar a ser donzela e o ciclo recomeçar.
O deus de Israel – portanto do judaísmo, cristianismo e islamismo – é o único que não comporta nenhum símbolo sagrado de feminino/não compartilha nenhum poder com alguma divindade feminina contrastando com todas as outras grandes tradições religiosas do mundo: seja do Egito, Grécia, Roma, Babilônia, Suméria, religiões africanas, hindus ou dos indígenas norte-americanos.
E esse Deus pai criador fez o mundo em 7 dias e pronto: tudo está eternamente posto. A morte é o fim, até o renascimento – um dia – para a vida eterna dos humanos escolhidos e obedientes a ele. E não foi Deus que criou a morte, a mulher é a causadora universal da morte: deus impôs a morte ao mundo pela desobediência de Eva. Um concilio da Igreja no século V proibiu de se chamar a morte de “necessidade natural” em vez de “consequência do pecado de Eva”.
A Velha era o símbolo disso. A morte violenta era aceita – afinal era morrer por algo heroico ou acidental, mas a velhice, a doença e a morte naturais eram execrados, não faziam parte do plano de Deus, vieram ao mundo por culpa das mulheres.
Além disso o mais temido poder das mulheres sobre os homens é o poder de dizer NÃO. De se recusarem a cuidar dos homens. De se recusarem a servi-los sexualmente. De se recusarem a comprar seus produtos. De se recusarem a cultuar seu deus. De se recusarem a amá-los. Por isso todo aparato patriarcal tem por objetivo imobilizar as mulheres a serviço de um homem – e para que elas não tenham liberdade econômica, intelectual, psíquica para dizer NÃO.
A mulher só é valorizada como ser a serviço do homem, como mãe e esposa que cuida dele e como objeto sexual – daí a Velha que não tem mais serventia: pode se negar cuidar dele e mandá-lo às favas, então tem que ser execrada.
Enquanto a figura da Velha poderosa e ligada à morte não fosse suprimida, as religiões patriarcais não conseguiriam o controle total das mentes dos homens. Daí rejeitarem as velhas de forma geral. Essa é a base dos 500 anos de caça às bruxas. Depois dessa violência veio o desprezo carregado de culpa contra as mães envelhecidas vistas como rabugentas a não ser que se disfarcem de frágeis e doces vovozinhas. E hoje a demanda cultural é que a mulher velha deve se disfarçar de jovenzinha, mesmo se mutilando e mesmo isso sendo de fato impossível. Resgatar a imagem da Velha tem que parte do processo feminista de lutar pelas mulheres e por um mundo melhor e mais justo!

 

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