O Feminino e o Sagrado um jeito de olhar o mundo

Sugestão de livro: O tempo é um rio que corre, de Lya Luft

Esse post traz algumas ideias sobre esse livro que levei para falar no ciclo de encontros A mulher e o tempo, coordenado pela Paula Ribas, que acontece mensalmente na Biblioteca Municipal de SP, e que recomendo muito. Cada mês é trabalhado um novo livro, e as trocas são bem estimulantes. Eu e Cris ficamos felizes de ver esse círculo!

Em O tempo é um rio que corre, Lya trata de três épocas da vida, que chama de Águas mansas (infância), Maré alta (idade madura), e A embocadura do rio (velhice e além).

Nas Águas Mansas, Lya traz memórias de lugares mágicos da infância. Um deles era a biblioteca do pai, que observa que era menor do que a dela, Lya, hoje – e isso me lembra Jung, que diz que, com sorte, nós nos tornamos maiores que nossos pais, realizando aquilo que eles não puderam realizar.  Ampliamos suas bibliotecas…

Outro lugar mágico era o quarto da mãe, que ela diz que era como entrar num conto de fadas, onde vestia roupas antigas, fantasias – e que a mãe vai chamar de “velharias inúteis”. Sua mãe era tão diferente dela – a menina introvertida e sonhadora tinha uma mãe alegre, pratica e extrovertida – que Lya diz que a mãe “talvez estranhasse ter me parido tão diferente dela”.

Eu observo que diferenças básicas como essas são muito comuns entre mães e filhas. E nós mulheres lidamos ao mesmo tempo com essas diferenças e com as diferenças que 1 ou 2 gerações fizeram no papel social de mulheres – a vida de minha mãe, de minha avó, de minha filha e a minha tem parâmetros sociais completamente diferentes. Separar do marido, fazer uma faculdade, por exemplo, eram em gerações passadas eram coisas complicadas para mulheres.

Conforme o jeito que nós encaramos isso, seja no papel de avó, de mãe ou de filha, essas diferenças podem ser um bem ou mal, podem ser vistas como opostas ou complementares. O jeito de Lya foi poético: quando descobriu uma trança que a mãe tinha cortado aos 10 anos porque era um penteado “tão pouco prático” e ver uma foto dela menina, ainda com as tranças onde parecia um anjo, Lya diz que “reinventou sua mãe pequena” para ficarem mais parecidas –  e isso vai trançar, simbolicamente, as duas mulheres. Então, espero que possamos encontrar trançamentos assim entre as diferenças do papel social e de temperamento entre nós e nossas ancestrais e descendentes …

No livro todo Lya busca a si mesma, o maior mistério: “as vezes me sinto tão eu-mesma de sempre, em qualquer momento da vida” e ao mesmo tempo “diz adeus a si mesma em cada fase da vida, e ao mesmo tempo sendo a mesma de sempre.” Mais para frente a jovem Lya diz, meio exasperada consigo: “bom, afinal essa sou eu de novo – paciência, essa é a que consigo ser”. “Sou esse, não outro, não o que a tribo quer. Aprendemos a gostar de nós mesmas… gente demais se subestima”. Ela avisa várias vezes: “todas as vezes a gente fez o melhor que podia no momento” .

E aí vem uma questão forte desse livro: o envelhecer. Como envelhecer sem se deixar dominar pelas imposições da tribo, que só valoriza o que é jovem, belo, rápido? “A tribo nos acolhe, conforta, quebra a solidão, mas tb pode nos descaracterizar, nos engolir”, ela diz. Assim, muitas velhas se deixam levar pela forma que somos tratadas pela sociedade que nos diminui. Nossa tribo costuma lidar com velhos numa postura entre desprezo e cuidados exagerados. Mas a posição de Lya é inspiradora: “quando só o meu rosto sobrava em cada espelho (e nada do lado de cá) juntei desalento e desejo e me reinventei com cuidado

Me reinventei com cuidado: com consciência, com cautela, com conhecimento, podemos reinventar a nós mesmas e o papel da velha na sociedade. Nos cabe fazer isso, acho. Agora é hora de reinventar a velhice.  “A própria realidade é inventada”, ela diz. Não como ilusões ou fake news, mas como um modo de enxergar a vida. Como um processo no qual “a gente aprende a cada hora”. Agora podemos aprender a ser velhas.

E isso quer dizer criar para se divertir, como uma artista que pinta para si mesma. Fazer o que ama. Ter projetos, de qualquer porte:  aprender ikebana ou inglês ou tarô, começar reuniões com amigas, buscar novas amigas, ensinar um artesanato. Projetos que não precisam, nem devem, ser os da sociedade, tipo ficar famosa, ter milhares de likes, ganhar mais grana, rejuvenescer na marra.  Aproveitar a velhice para ser mais livre que nunca, porque a liberdade está também na cabeça. Enfim, é hora de nos reinventar, reinventando a velhice como algo flexível, amoroso, bem humorado.

E se a gente se abrir para isso, a morte pode vir como uma porta aberta para outras reinvenções, para outros aprendizados, quem sabe?

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