O Feminino e o Sagrado um jeito de olhar o mundo

Deus-Mãe

A palavra “deus” significa coisas muito diferentes dependendo da espiritualidade, da crença ou da falta de crença de cada uma de nós.

A poesia que trago hoje apresenta deus como mulher e mãe, mostra como o patriarcado trata suas simbologias e representações humanas e inspira outras coisas, tão pessoais quanto o próprio significado de deus para cada uma.

A autora é Kaitlin Hardy Shetler, a arte é de Harmonia Rosales, a tradução é minha com ajuda da Lucia Del Picchia, a quem agradeço juntamente com a Rafaela Baker pelo compartilhamento.

deus é uma mãe

e com essa

frase

o mundo para

 

o mundo sempre para

quando mulher e

divino

se misturam

 

como se o

feminino

diluísse o

milagroso

quando na realidade

ele o encarna

 

quando jesus transforma água

em vinho

eles aplaudem

mas quando as mulheres transformam seios

em leite

eles ficam constrangidos

não veem nisso nenhuma maravilha

e ainda a envergonham

 

o corpo de um homem alquebrado

é comemorado todos os domingos

enquanto o corpo de uma mulher abusada

é simplesmente escondido

 

e não é de admirar

que mãe seja uma palavra

usada por homens

para demonizar aquelas

que não podem revindicar esse nome

e que é usado como arma para envergonhar

aqueles que saem da linha

 

porque

a mulher

ideal deles

desempenha o papel de nutridora

e silencia

em cubículos

construídos e permitidos por eles

 

mas

quando deus

torna-se mãe

ela não fica quieta

nem resignada

ela lidera com confiança

ela questiona a autoridade

ela impõe respeito

e isso pode ser o problema

 

a mãe deus

não nos fez

descuidadamente

mas se demorou na tarefa

ela nos alimentou com leite

deu à luz

fez nascer nossas almas

alquebrou seu próprio corpo

e a permanência ali

pode ser desconfortável

 

então separar deus

de maternidade

é impossível

mas

separar deus

de feminino

é um pecado

 

porque ver deus como mãe

é um passo mais perto

de ver deus em mim mesma

e é dentro

que eu sou verdadeiramente

renascida

 

Kaitlin Shetler Poetry
www.skeptileptic.blogspot.com/p/poems-for-resistance.html

art
Harmony Rosales
www.harmoniarosales.com

 

god is a mother
and with that
sentence
the world stops

the world always stops
when woman and
divine
commingle

as if the
feminine
dilutes the
miraculous
when in reality
it embodies it

when jesus turns water
to wine
they clap
but when women turn breasts
to milk
they cringe

a broken man’s body
is celebrated each sunday
while a broken woman’s body
is just hidden away

and it’s no wonder
that mother is a word
used by men
to demonize those
who don’t claim the name
and weaponized to shame
those who step out of line
because
their ideal
woman
plays the role of nurturer
and silencer
in pews
built and led by them

but
when god
becomes mother
she is neither quiet
or compliant
she leads confidently
she questions authority
she commands respect
which might be the problem

for mother god
did not gather us up
carelessly
but took her time with it
she fed us milk
birthed our souls
and broke her body
and the permanence
can be uncomfortable

and to disentangle god
from motherhood
is impossible
but
to disentangle god
from womanhood
is sinful

because seeing god as mother
is one step closer
to seeing god in me
and it’s in that
i am truly
born again

2 comentários

  1. Luciana Cardeal Mendes disse:

    Achei maravilhoso. Fui criada na religião espírita e como toda fé cristã, contemplando uma versão de Deus masculina. E que embora benevolente traz em si todo o peso da culpa cristã e do sofrimento como redenção. Pra mim é difícil conseguir mudar essa perspectiva, mas me parece que aceitar a/o Deusa/Deus Mãe é se empoderar e finalmente compreender o divino dentro de si, como diz a poesia e nos livrarmos da ideia de evolução através do sofrimento. É um longo processo…
    Parabéns, Bia. Texto que toca na alma. Só uma observação: acho que faltou a palavra “leite” na sua tradução no 9° parágrafo (“ela nos alimentou com…)

    1. biapicchia disse:

      Também amei a poesia, a ideia e a imagem – e grata pela observação, Luciana, já arrumando. Beijos!

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