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Iamuricumás, as viajantes que dançam – parte 1

Durante minhas pesquisas para escrever o volume 2 do “Legado das deusas” me deparei com esse lindo mito indígena brasileiro, do povo Kamaiurá, um mito bem feminista! Achei algumas referências esparsas sobre ele, mas acabei sabendo melhor sobre ele através de um livrinho publicado na década de 1980 (numa edição horrível e com um conteúdo incrível) dos irmãos Vilas Boas. Trago hoje aqui a primeira parte dessa história e semana que vem a segunda. O mito é recontado por mim na minha linguagem.


Houve um tempo em que as índias Iamuricumás tocavam uma flauta – o jakuí – todos os dias. Embaladas pelo delicioso som do instrumento, elas se divertiam muito, dançando, cantando, enfeitadas com colares, penachos, braçadeiras e com lindas pinturas em seus corpos. Nenhum homem podia vê-las nessas festas. Todas as noites tocavam no tapãim, a casa das flautas, proibida aos homens. Durante o dia, quando havia festa, acontecia ao ar livre e aí os homens tinham que se trancar dentro de casa, pois aquele que visse alguma índia tocando seria duramente castigado por elas.

O Sol e a Lua não sabiam desse arranjo. Um dia visitando a aldeia viram o que acontecia. Não gostaram nada daquilo e resolveram interferir. Combinaram entre eles uma estratégia para mudar aquela situação.

Então um dia, durante uma festa ao ar livre, o Sol apareceu enfeitado de penas e penachos e com um enorme hori-hori (um zunidor) começou a fazer um barulho infernal: as Iamuricumás ficaram apavoradas, não sabiam o que fazer! Então a Lua apareceu e gritou para elas correrem e se esconderem dentro de casa. Foi o que fizeram.

Nessa hora, os homens que tinham sido informados previamente do que o Sol e a Lua iriam fazer, saíram de dentro das casa cheios de alegria e se apropriaram dos jakuis. Depois também aprenderam todos os cantos e as todas as danças das Iamuricumás.

E, daquele dia em diante foi assim que os costumes ficaram – os homens tocam, dançam, se enfeitam e cantam e as mulheres ficam dentro de casa. E o Sol e a Lua disseram: “É assim que está certo!”

Mas… passado um longo tempo em que as coisas corriam assim, aconteceu o seguinte: um dia quase todos os homens da aldeia saíram para pescar num rio que ficava distante da aldeia. E não voltavam. Passou um dia, passou outro e a mulher do chefe da tribo, estranhando, pediu a seu filho que fosse ver qual era a razão de tanta demora. Ele foi até o rio e voltou com a notícia de que os homens estavam lá fazendo uma algazarra imensa e se transformando em porcos e outros bichos do mato.
A mãe ficou furiosa ao saber da novidade: que comportamento era esse, não voltar para casa e se transformar em bichos?? Convocou então todas as outras mulheres da aldeia e contou o que estava acontecendo. Depois de muitas conversas, polêmicas e discussões tomaram uma decisão: iam partir, deixar de vez aquele lugar.

Trecho do livro O LEGADO DAS DEUSAS 2

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