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Iamuricumás, as viajantes que dançam – parte 2

Continuando meu relato sobre o feminista mito das Iamuricumás, que comecei semana passado, hoje concluo seu relato.


Depois de decidirem partir da aldeia…. Levaram alguns dias no preparo da viagem, juntando o que iam levar. Chegado o dia da partida todas se enfeitaram com penachos, colares, braçadeiras, se pintaram com urucu e jenipapo como agora só faziam os homens e começaram a cantar. Os poucos homens que não tinham ido à pescaria e ficado na aldeia começaram a criticá-las, a gritar com elas, a xingá-las, mas elas pouco se importaram; continuaram a cantar e se juntaram no centro da aldeia. E passaram veneno no corpo para se transformarem em mamaé (espíritos).

Então vestiram um velho índio com a casca do tatu-açu e mandaram ele ir a frente dizendo: “agora você não é mais gente, é tatu”. E, sem interromper o canto, dançando começaram a se afastar da aldeia seguindo o tatu que ia na frente cavando a terra, mergulhando nela para sair mais à frente, abrindo passagem. E sempre dançando elas caminhavam atrás do tatu.

Passaram onde estavam os maridos pescadores e eles assustados pediram para elas pararem e voltarem para a aldeia. Elas, sem darem ouvidos, continuaram a caminhar, dançando e cantando. E assim foram em frente…e sempre com o tatu abrindo caminho.

E caminhando, cantando e dançando passaram por várias aldeias vizinhas. E sempre que estavam passando por alguma delas, os maridos gritavam com suas mulheres ordenando que sequer olhassem para aquele festivo cortejo, mas muitas delas não obedeciam. Largavam tudo e aderiam ao grupo, também cantando, dançando e indo caminho afora.

E as Iamuricumás e as muitas mulheres que se juntaram a elas seguem viajando até hoje. Caminham dia e noite sem parar, sempre enfeitadas, sempre cantando, sempre dançando. Dizem que não tem o seio direito para melhor manejar o arco-e-flecha com o qual se defendem…

Trechos do livro O LEGADO DAS DEUSAS 2

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