O Feminino e o Sagrado um jeito de olhar o mundo

Nosso corpo, a cultura patriarcal e a libertação


Massivamente a cultura através de todos seus meios de propagação dissemina há anos, às vezes de forma sutil, outras de formas nada sutis, que o principal poder de uma mulher é sua beleza física e sua juventude. E beleza física dentro de padrões rigidamente estabelecidos e ligados a modelos ditados pela moda do momento. Se não corresponder a esses padrões de beleza e juventude, a mulher perde valor, independentemente de quaisquer outras qualidade que possa ter. Aliás quanto mais longe dos padrões menos vale.

A consequência nefasta é que se a mulher cair nessa armadilha machista vai tratar seu corpo como um objeto imperfeito que precisa ser “consertado”. E ainda pior, seu corpo será visto como seu inimigo, como aquilo que está errado nela, o que é defeituoso e que a torna menor, menos valiosa e em consequência mais infeliz. E é muito difícil não ser afetada por essa visão pois ela é tão disseminada que acaba sendo vista como verdade e não como a crença opressiva e tóxica que realmente é.

Parece até que essa exaltação da beleza feminina padronizada e paralisada no tempo, é uma resposta da cultura patriarcal à libertação das mulheres vindas através dos movimentos feministas. Dessa forma estabelece-se uma nova prisão que nos tira grande parte do poder conquistado. Nossa autoestima e nosso senso de valor ficam à mercê do que os “outros” acham de nossa aparência física. Essa crença é uma das grandes responsáveis pela manutenção do nosso machismo interiorizado, muitas vezes inconsciente.

Vamos ver o nosso corpo como ele é de verdade: nossa morada nessa vida, o que nos pode permitir sentir e dar prazer, alegria e afeto. E vamos nos apoderar da definição da nossa beleza, a humana, não a plastificada. Na beleza do nosso corpo, não como imagem para julgamento dos outros, mas como um ser vivo e pulsante. Beleza que está em nosso gingado neste mundo, em nosso sorriso de apreciação às coisas boas, em nossas lágrimas emocionadas, na expressão de tolerância e sabedoria que podem vir com a idade, no olhar amoroso, no abraço acolhedor, no ombro amigo, na gargalhada que contagia, na dança com que celebramos a vida.

Como disse Clarissa Pinkola Estés : “No corpo, não existe nada que “devesse ser” de algum jeito. A questão não está no tamanho, no formato ou na idade. A questão está em saber se esse corpo sente, se ele tem um vínculo adequado com o prazer, com o coração, com a alma…”.

Trechos do livro O LEGADO DAS DEUSAS 2

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