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Raiva sim, mas com limite

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Clarissa Pinkola Estés explica aqui como a raiva pode ser útil mas só até certo ponto. Se é demais e longa demais, ela engessa a vida. Mas há saída.

“Quando a mulher enfrenta dificuldades para se livrar da raiva ou da fúria, muitas vezes é porque ela está usando a raiva para ganhar forças. Embora a princípio essa possa ter sido uma decisão sábia, com o tempo ela precisa ter cuidado, pois a raiva constante é um fogo que queima sua própria energia vital. Encontrar-se nesse estado é como voar pela vida com “o pé na tábua”; como tentar levar uma vida equilibrada com o pé no acelerador até o fundo. O ímpeto da fúria não deve ser considerado um substituto da vida cheia de paixão. Não é a vida na sua melhor forma.

Trata-se de uma defesa cuja manutenção é muito cara, depois de passada a necessidade da sua proteção. Após algum tempo, ela arde incessantemente, polui nossas idéias com sua fumaça negra e prejudica outras formas de visão e de percepção.

Não vou, porém, lhe dizer a mentira deslavada de que você tem condições de eliminar toda a sua fúria hoje ou na semana que vem, e que estará livre dela para sempre. A angústia e o tormento de tempos passados costumam surgir na psique numa freqüência cíclica. Embora um expurgo profundo elimine a maior parte da dor e da fúria, nunca se consegue varrer completamente todo o resíduo.

Ele deveria, no entanto, deixar cinzas bem leves, não um fogo voraz. Por isso, a limpeza da fúria residual precisa se tomar um ritual de higiene periódica, um ritual que nos libera, pois carregar a raiva antiga além do ponto de sua utilidade equivale a carregar uma ansiedade constante, mesmo que inconsciente. Às vezes as pessoas se confundem e pensam que estar presa a uma raiva ultrapassada significa queixas e enfurecimentos, acessos de raiva e de atirar coisas.

Na maioria dos casos não é assim que funciona. Estar presa significa estar cansada o tempo todo, ter uma grossa camada de cinismo, destruir a esperança, frustrar o novo, o promissor. Significa ter medo de perder antes de abrir a boca. Significa chegar ao ponto de ebulição por dentro, deixando transparecer ou não. Significa amargos silêncios defensivos. Significa sentir-se desamparada. Existe, porém, uma saída, e é através do perdão.

(…) A mulher que conseguir atingir 95% de perdão de alguém ou de algum acontecimento trágico e danoso está praticamente qualificada para a  beatificação, se não para a santidade. Se ela sentir uns 75% de perdão e 25% de “não sei se vou um dia conseguir perdoar totalmente, e nem sei se quero isso”, estará mais próxima do normal. No entanto, 60% de perdão acompanhados de 40% de “não sei, não tenho certeza e ainda estou pensando nisso” já são uma atitude decididamente satisfatória.

Seja como for, quando tiver passado um pouco da metade do caminho, o resto virá com o tempo, geralmente em pequenos aumentos graduais. O aspecto importante do perdão consiste em começar e persistir. A conclusão do processo é trabalho para toda a vida. Você dispõe do resto da sua vida para trabalhar nos percentuais residuais.

Na realidade, se pudéssemos entender tudo, tudo poderia ser perdoado. Para a maioria das pessoas, porém, é preciso muito tempo no banho alquímico para chegar a esse Ponto. E está certo. Nós dispomos da cura e, por isso, temos a paciência para acompanhar o processo”.

Mulheres que correm com os lobos, Clarissa Pinkola Estés

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