O Feminino e o Sagrado um jeito de olhar o mundo

Recado de Clarissa Pinkola Estés: fomos feitos para esses tempos

Texto traduzido pela Ana Gibson, gratidão, amiga! A gente vivifica com essas palavras, que no original inglês estão na página da Clarissa do facebook. 

Meus estimados queridos, não percam a esperança. Fomos feitos para esses tempos.
Ouvi tantos exporem seu espanto, profundo e legítimo. Estão preocupados com o estado das coisas no mundo.

É verdade, é preciso ter culhões e ovários fortes para aguentar muito do que atualmente passa por “bom” na nossa cultura. A desconsideração abjeta do que a alma percebe como mais precioso e insubstituível e a corrupção dos ideais baseados em princípios têm se tornado, em algumas grandes arenas societais, “o novo normal”, a bizarrice da semana.

É difícil dizer qual dos atuais escândalos mais chacoalhou os mundos e as crenças das pessoas. Vivemos tempos de espanto quase que diário e muitas vezes uma raiva justa pelas últimas degradaçōes daquilo que é mais prezado pelos povos civilizados e visionários.

Você está certo quanto as suas avaliações. O brilho e o excesso de confiança que alguns aspiraram ao apoiarem atos tão abomináveis contra crianças, idosos, pessoas simples, pobres, desvalidos, impotentes é de tirar o fôlego. Contudo, peço-lhes, instigo-lhes, gentis criaturas, a não ressecarem seu espírito ao reclamarem desses tempos difíceis. Principalmente, não percam a esperança. Em especial por que fomos feitos para esses tempos.

Sim. Durante anos, aprendemos, praticamos, fomos treinados e estávamos apenas aguardando para nos encontrarmos nesse plano de envolvimento. Não canso de dizer-lhes que somos sem sombra de dúvida os líderes pelos quais esperávamos e que fomos criados, desde pequeninos, exatamente para esses tempos.

Cresci nos Grandes Lagos e reconheço um barco em condições de navegar. Com relação às almas despertas, nunca houve barcos mais aptos nas águas do que agora, no mundo todo. E estão totalmente abastecidos e capazes de mandar sinais uns aos outros como nunca na história da humanidade.

Gostaria de tomar cada um pelas mãos brevemente e garantir-lhes que foram feitos para esses tempos. Apesar de seus momentos de dúvida, suas frustrações para consertar tudo o que precisa mudar agora ou mesmo a sensação de que perdeu totalmente o mapa, não lhe faltam recursos. Você não está só.

Olhe pela proa; há milhões de barcos de almas justas nas águas com você. Nas suas mais profundas entranhas, você sempre soube disso.Embora seu casco possa tremer a cada onda desse mar agitado, asseguro-lhe que as compridas tábuas que compõem sua proa e leme vêm de uma floresta ainda mais vasta. Essa madeira dura sabidamente resiste a tempestades, intacta, e avança, apesar dos pesares.

Fomos treinados para uma época sombria como essa, desde que concordamos em vir para a Terra. Durante muitas décadas, no mundo todo, almas como as nossas foram abatidas ou deixadas à morte de tantas maneiras, incessantemente – golpeadas pela ingenuidade, pela falta de amor, por de repente perceber uma coisa ou outra fatal, por não perceber algo antes, por ser tocaiados e assaltados por vários choques culturais e sociais extremos.

Todos temos uma herança e uma história de destruição, mas lembre-se disso em especial: também temos, por necessidade, aperfeiçoado o dom da ressurreição. Repetidamente, somos a prova viva de que aquilo que foi exilado, perdido ou arruinado pode ser restaurado à vida novamente. É um prognóstico verdadeiro e resistente para os mundos destruídos a nossa volta, assim como já foi para os nossos eus já mortalmente feridos.

Embora não sejamos invulneráveis, nossa risibilidade nos ajuda a rir dos cínicos que dizem “sem chance” e “gerência antes da misericórdia” e outras provas da total ausência de sentido de alma. Isso, e o fato de termos ido e voltado do inferno pelo menos uma ocasião importante, nos torna com certeza barcos experientes. Mesmo que não se sinta assim, você o é.

Mesmo que o insignificante ego queira contestar a enormidade da sua alma, o pequeno eu não consegue subordinar por muito tempo o Eu maior. Em questões de morte e renascimento, você já ultrapassou os marcos muitas vezes. Acredite nos indícios de qualquer um dos seus testes e provações passados. Ainda está de pé? A resposta é, sim! (e nada de advérbios como dificilmente). Se ainda está de pé, com bandeiras esfarrapadas ou não, é capaz. Portanto, passou no teste. E até mesmo elevou o nível de exigência. Você é forte.

Em tempos sombrios, há a tendência a cambar para o desânimo com relação ao que está errado ou irrecuperável no mundo. Não se atenha a isso. Também há a tendência a ficar enfraquecido ao fixar-se no que está fora do controle, ao que ainda não pode ser. Não se detenha aí. Trata-se de gastar vento sem levantar as velas.

Somos necessários, é tudo o que podemos saber. E embora encontremos resistência, acharemos mais almas grandiosas que nos saudarão, amarão e guiarão, e as reconheceremos quando aparecerem. Você não disse que acreditava? Não disse que se esforçou para ouvir uma voz maior? Não pediu uma graça? Esqueceu-se que estar em graça significa submeter-se a uma voz maior? Você tem todo o recurso necessário para surfar qualquer onda, emergir de qualquer depressão.

No jargão dos aviadores e marinheiros, temos que ir em frente, dar tudo de si. Entenda o paradoxo: se estudar a física de uma tromba d´água, verá que o vórtice externo gira muito mais rápido do que o interno. Acalmar a tempestade implica serenar a camada externa, fazer com que, através de quaisquer meios compensatórios, gire muito menos, para adequar-se de forma mais uniforme à velocidade do centro menos volátil e interno – até que aquilo que foi elevado a um funil tão violento desça novamente à terra, aquiete-se, volte a ser pacato.

Uma das ações mais importantes para acalmar a tempestade é não se deixar levar pela agitação da emoção ou desespero exagerado, sem querer contribuindo para a depressão e o turbilhão. Nossa tarefa não é consertar o mundo inteiro de uma só vez, mas empenhar-se a reparar a parte do mundo ao nosso alcance. Qualquer coisa pequenina e calma que uma alma possa fazer para ajudar outra alma, para auxiliar alguma parte desse pobre mundo sofredor, ajudará bastante.

Não nos cabe saber que ato ou quem fará a massa crítica pender para um bem duradouro. O necessário para uma mudança drástica é um acúmulo de atos, somar, somar e somar mais, sem parar. Sabemos que não precisa que todo mundo traga justiça e paz, mas apenas um pequeno grupo determinado que não desistirá durante a primeira, a segunda ou a centésima tempestade.

Uma das ações mais tranquilizantes e poderosas que se pode fazer para intervir em um mundo tempestuoso é levantar-se e mostrar sua alma. A alma no convés brilha como ouro na escuridão.

A luz da alma lança faíscas, pode mandar sinais de fogo, faz com que a matéria apropriada seja incendiada. Mostrar a lanterna da alma em épocas sombrias como a nossa – ser corajoso e demonstrar misericórdia ao próximo – ambos são atos de imensa bravura e da maior necessidade. As almas combatentes pegam a luz das outras almas que estão totalmente acesas e dispostas a expor-se. Se quiser ajudar a acalmar o tumulto, essa é uma das coisas mais fortes que pode fazer.

Sempre haverá momentos, no meio do “sucesso logo ali mas ainda não vislumbrado” em que se sentirá desanimado. Eu também já me desesperei muitas vezes na vida, mas não reservo um lugar para o desespero. Não serei sua anfitriã. Não o deixo comer do meu prato.

Eis a razão: no âmago dos meus ossos, sei algo, assim como vocês. É que não pode haver desespero quando nos lembramos por que viemos para a Terra, a quem servimos, e quem nos enviou. As boas palavras que dizemos e as boas ações que fazemos não são nossas. São as palavras e ações d’Aquele que nos trouxe aqui.

Nesse espírito, espero que escreva na parede: quando um grande barco encontra-se no cais e amarrado, está seguro, sem dúvida. Mas não é para isso que foram feitas as grandes embarcações”.

~ Clarissa Pinkola Estés

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