O Feminino e o Sagrado um jeito de olhar o mundo

Sobre o medo de amar dos homens

                 Malcolm Liepke

Clarissa Pinkola fala aqui sobre homens excessivamente defensivos, como os que que não se permitem entregar a um relacionamento, dentro de uma perspectiva maior e que abrange outros medos.  

Existe uma prudência que é verdadeira, quando o perigo está por perto, e uma prudência que não tem justificativa e que se origina de algum ferimento anterior. Esta última faz com que os homens ajam de modo irritadiço e desinteressado mesmo quando eles sentem que gostariam de demonstrar carinho e afeio. As pessoas que têm medo de “ser ludibriadas” ou de “entrar num beco sem saída” — ou que não param de vociferar seus direitos de querer “ser livre” — são as que deixam o ouro escapar por entre os dedos.

Muitas vezes ouvi um homem dizer que tem “uma boa mulher”, que está interessada nele e ele, nela; mas que ele simplesmente não consegue “se soltar” o suficiente para saber o que realmente sente por ela. O momento crítico para uma pessoa desse tipo ocorre quando ele se permite amar “apesar de”… apesar de ter suas angústias, apesar de ficar nervoso, apesar de ter sido ferido anteriormente, apesar de temer o desconhecido.

Às vezes não existem palavras que estimulem a coragem. Às vezes é preciso simplesmente mergulhar. Tem de haver em algum ponto da vida de um homem um período em que ele confie na direção que o amor o levar, em que ele tenha mais medo de ficar confinado a algum leito rachado do rio seco da psique do que de estar solto num território exuberante, porém inexplorado. Quando uma vida é excessivamente controlada, cada vez há menos vida a controlar.

(…) Dentro da psique masculina, há uma criatura, um homem incólume, que acredita no bem, que não tem dúvidas acerca da vida, que não só é sábio, mas também não tem medo de morrer. Alguns a identificariam como o self guerreiro, mas não se trata disso. É um self do espírito, e de um espírito jovem ainda por cima, que continua a amar independente de ter sido atormentado, ferido e exilado, porque a seu próprio modo ele cura a si mesmo, recupera a si mesmo.

As mulheres podem testemunhar ter visto essa criatura oculta num homem fora dos limites da sua própria percepção. A capacidade desse espírito jovem de fazer com que o poder da cura atue na sua própria psique é tamanha que chega a estarrecer. Sua confiança não depende de que sua parceira não o magoe. Ela é uma confiança na possibilidade da cura de qualquer ferimento que ele sofra, uma confiança na vida nova que se segue à antiga. Uma confiança na existência de um significado mais profundo em todas essas coisas, em que acontecimentos aparentemente ínfimos não são desprovidos de significado, em que todos os aspectos da vida — os ásperos, os recortados, os alegres e os sublimes —, todos podem ser aproveitados como energia da vida.

Mulheres que correm com os lobos, pg 101, Clarissa Pinkola Estés

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