O Feminino e o Sagrado um jeito de olhar o mundo

Somos múltiplas


Somos multifacetadas. Podemos aceitar que temos diversas facetas e que isso não nos torna incoerentes, apenas humanas. Hora sou assim, hora sou assado, mas sempre eu mesma. Como diz a poeta – e poetas sabem das coisas – “ mulher é desdobrável”*.

Isso não quer dizer, e a Deusa que nos livre disso, que podemos ser multitarefas: isso é coisa do patriarcado que nos quer imputar inúmeros deveres como se fosse o “natural” para as mulheres. Não estamos falando de múltiplos afazeres e sim das muitas facetas em que pode se desdobrar a nossa individualidade.
Então, nem pensar em mulheres que seguram “inúmeros pratos rodando ao mesmo tempo e tentando fazer com que nenhum deles caia” – e normalmente ligados a interesses dos outros e não aos delas, por sinal – mesmo que isso as exaura. Definitivamente não é isso que está sendo dito e sim de viver as diferenças que existem dentro de nós.

Podemos ser uma tempestade terrível, cheia de raios, trovões, até com chuva de granizo, como podemos ser um dia de sol ameno, de céu muito azul sem nuvens, com uma suave brisa primaveril. Podemos ser como uma tigresa bravia lutando por seu território ou como uma suave gatinha buscando colo. Podemos ser uma paineira antiga, forte, com raízes imensas ficadas na terra ou um junco leve, nos submetendo e balançando ao vento sem quebrar. Podemos ser um oceano encapelado, furioso, violento assim como um pequeno riacho, com límpidas aguas correndo suavemente entre as pedras.

Hora podemos nos sentir frágeis e vulneráveis como uma pequena criança se sentindo sozinha, hora fortes e invencíveis como a Mulher Maravilha. Hora confusas, cheias de dúvidas e sem rumo, hora cheias de lucidez e certezas. Horas com a sensação de que nada sabemos, que nossa ignorância é imensa e somos totalmente incompetentes e inseguras, horas em que achamos ter descoberto a Verdade, que agora compreendemos a vida e que ninguém nos segura.

Como humanas nada em nós é permanente! Ao mesmo tempo, se amadurecemos e nos tornamos psicologicamente adultas, construímos um centro interno que aglutina tudo aquilo que somos, o que vivemos como experiência interna e o que expressamos na vida. Existe uma coerência existencial que forma a mistura que liga tudo em nós, apesar de se manifestar de diferentes formas e muitas vezes, até de maneiras aparentemente paradoxais.

Somos mutáveis e constantes ao mesmo tempo. Se aquilo que experimentamos, é sempre verdadeiro, no sentido interno e íntimo, tudo somos nós, tudo nos representa, tudo nos compõe.

Trechos do livro O LEGADO DAS DEUSAS 2

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